Cabine de projeção

Exceção a regra: lançamento de Motorrad, de Vicente Amorim, no Cine Odeon, Festival do Rio

Cabine de projeção

Texto e foto de Valéria del Cueto

Nem no tranco está pegando. Bateu um cansaço de avisar e registrar e avisar de novo… Função de amigo, né? Mas enche o saco. Então está na hora de procurar outros caminhos. De preferência que agreguem valores, instiguem a imaginação de forma positiva, ampliem o leque de conhecimento.

Sempre adorei ir ao cinema. Desde criancinha. A partir do momento em que estive apta a entender e respeitar o ritual do silêncio da sala escura e ter capacidade de viajar nas histórias troquei a sessão infantil das cinco da tarde no Leme Tênis Clube por outras mais profissionais, por assim dizer.

Quando assisti, logo após o lançamento, “Help!” dos Beatles já era palpiteira. Foi o primeiro filme deles que assisti. Me atrevi a dizer que era chato, sem apresentar uma boa justificativa. “Por isso não dá para trazer criança no cinema…”, ouvi da minha mãe.

Como não eu não era “criança”, realinhei meus parâmetros críticos, engrenei numa vida “cinemeira” e nunca mais parei. A turbinada que faltava para o vício veio aos 18 anos, quando finalmente parei de ser barrada nas bilheterias por ser “menor de idade”.

Foi um tempo áureo. Nos jornais só olhava as colunas de lançamentos da semana e as reprises em busca de raridades e ciclos cinematográficos que passavam nos cineclubes. Do MAM, das universidades e nos grupos jovens católicos.

O tempo passou me empurrando daqui para lá e daí fui parar em Mato Grosso. Em Cuiabá a vida cinematográfica praticamente inexistia. Tinha o básico, algumas salas pornôs e o Cineclube Coxiponés, da Universidade Federal de Mato Grosso.

Para não pirar e desapegar, abstrai. Foi o tempo das fugas nos finais de semana para São Paulo e imersões em sessões seguidas na Paulista, com pausas gastronômicas e pit stops em apart-hotéis da região. Os vídeos e, mais tarde, os DVD acabaram substituindo o ritual do escurinho o cinema.

Sim, até tentei algumas vezes quando aumentou a oferta de blockbusters nas salas dos shoppings cuiabanos. Mas foram ruins as experiências. Na maioria das vezes especialmente no quesito concentração. A que preciso para ser envolvida pela mágica do cinema. Barulhos, conversas, celulares… Melhor ficar em casa. Sim, continuo quase feliz.

Outro dia, comecei a reparar que estava difícil manter a concentração num filme inteiro. Tudo em volta distrai. O computador, o celular (de novo), coisas que precisam ser resolvidas logo já que passam na sua cabeça como um filme no meio do filme… Urgências.

Foi assim que uma quebra de rotina e um novo desafio apareceu naturalmente com um convite para uma cabine de cinema. Sabe o que é uma cabine? Sessões especiais para jornalistas e críticos assistirem os lançamentos e fazerem resenhas cinematográficas nos seus veículos.

Na primeira fui interessada no filme. Sorte a minha. Normalmente as cabines têm sido marcadas para o período a manhã. Antes das sessões regulares das salas. Se meu debut fosse num filme chato…

Acabei aprendendo alguns truques básicos que têm feito de mim uma adicta das projeções matinais. Um deles é sempre ter uma balinha e água na bolsa. As cafeterias ainda não abriram nesse horário. Outro truque é ser honesta comigo quando dormi mal na noite anterior ao compromisso. Sim, já quase desmaiei de sono numa manhã, mas me orgulho de dizer que não sucumbi.

Tudo para ter de novo uma porta aberta – e silenciosa – para manter acesa a capacidade de me transportar para outros mundos. Por aqui, a coisa está mais para filme trash. Deixou de ser filme B já faz um bom tempo. Então, vamos para ele, o cinema, que ainda é a maior diversão.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa matéria faz parte da série “Arpoador” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

E3 - ILUSTRADO - 25-10-2017

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