Para mim, Paraty

Texto e foto de Valéria del Cueto

Troquei o “P” da Ponta pelo “P” de Paraty por alguns dias. Voltei a um lugar que sempre fez parte dos meus roteiros. Nunca turísticos, no sentido clássico da palavra, porque nunca os conseguirei fazer.

Conheci Paraty quando a cidade, Patrimônio Histórico Nacional, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro, passou a fazer parte da minha rota de fuga pós-campanha política em Mato Grosso. E foram muitas… Um dia, por acaso, em vez de pegar a Dutra para fazer o trajeto Rio/São Paulo acompanhada em um parceiro que, como eu, adorava uma estrada e um desvio, resolvemos descer por Santos e vir bordejando o litoral dos estados de São Paulo e Rio de janeiro, até chegarmos a Cidade Maravilhosa.

Levamos para percorrer esse percurso mais de uma semana. Parando onde achávamos que iríamos descobrir lugares especiais e recantos. Fugindo, como sempre das muvucas, exaustos que estávamos dos meses de trabalho pesado eleitoral.

Bertioga e Ilha Bela, ainda em São Paulo, fizeram minha cabeça e consumiram alguns dias, até chegarmos a quina sul do Rio de Janeiro, Paraty Mirim, onde chegamos por uma estradinha safada de terra e aproveitamos para não perdermos a manha de dirigir nesse tipo de condições adversas como fazíamos direto pelas quebradas mato-grossenses.

Batemos em Paraty em clima de semi-exaustão e despencamos numa das melhores pousadas, na área restrita à circulação de automóveis, para recuperarmos nossas energias exauridas, não na viagem, mas no trabalho. Éramos “nobres” chegando melhor estalagem da colônia e assim fomos tratados.

Apaixonei-me por Paraty para sempre. Principalmente por que chegamos num domingo a noite e pudemos re-conhecer o lugar e os caiçaras sem a interferência dos visitantes de final de semana. Isso foi nos idos do milênio passado. E, de lá para cá, para me levar a Paraty, bastava um convite. Fosse para o que fosse: alambiques, Estrada do Ouro, praias do continente…

Depois, quando me considerava uma quase especialista no pedaço, conheci outra Paraty, com atrações incríveis e paisagens únicas.

Na minha vida al mare, velejando e andando para cima e para baixo nas 365 ilhas da Baía de Angra dos Reis, por uma necessidade burocrática tivemos que levar a escuna Corisco a capitania da Marinha para regularizar o barco. E a mais próxima era em…

Foi como olhar uma imagem que já conhecia por um ângulo totalmente novo – e mais – com a possibilidade de explorar o sensacional e recortado litoral de Angra até lá.

Se fosse usar a técnica exploratória que praticamos nas viagens de carro pelas famosas curvas da estrada de Santos, desembarcando em cada praia ou recanto que me encantava no caminho, levaríamos meses, quiçá um ano (caso abríssemos o raio de ação até Paraty-Mirim como, é claro, cheguei a propor ao comandante. Tive minha proposta rechaçada pela sempre apertada agenda das fugas para os paraísos e pela existência de Ilha Grande, nosso objeto exploratório prioritário)

Entre outras idas e vindas, a mudança mais significativa dos perfis de minhas visitas foi quando a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty me fisgou por dois costados. O do local que adoro e a atividade que venero: a literatura. Tudo ótimo. Mas ver o paraíso entupido de gente me incomodou e dificultou minha sintonia local.

Agora, volto para o MIMO – Mostra Internacional de Música de Olinda. Mas, como não sou iniciante, antecipei a chegada e, durante dois dias, pude fazer o que mais amo: conviver com os moradores locais. Ouvir suas histórias (o que é praticamente impossível na correria dos finais de semana) e, do silêncio das ruas, desertas extrair imagens quase puras do nosso longínquo e rico passado colonial.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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