Pra quem fica, tchau

Mang prot 12101 001 bonecos delirio fundo de tela25 de outubro de 1999

O dia nascia e Liu partia. Naquele exato momento estava eu, tão longe, quase dormindo, ouvindo um lindo poema. Ele falava do anteontem, do ontem e… do amanhã. Quando acordei, faltava um pedaço de Cuiabá. Mesmo longe, posso sentir a lacuna, o vazio. Talvez demore muito tempo para que se faça uma idéia da importância de quem perdemos.

Quando cheguei a Mato Grosso, no início dos anos 80, Cuiabá recebia milhares de imigrantes. Isto de uma certa forma contrastava e ameaçava a cultura local. E os cuiabanos, como uma concha ao ser tocada, se fechavam para este novo contingente humano. Resguardavam seus valores.

Um dia, conversando com Liu, que chegava do meu Rio de Janeiro, onde estivera estudando, analisávamos uma forma de quebrar esta barreira, criar uma ponte. Chegamos a conclusão de que isto só poderia acontecer quando uma expressão cultural cuiabana conseguisse se popularizar e atrair a simpatia  dos todos os habitantes da cidade. Enfim, explodir na mídia, ocupando um espaço ainda vago no coração tanto do povo que estava, quanto do povo que chegava.

A comadre Nhara fez isto. Tanto aprontou…. Passou a ter vida própria. Dos palcos pulou para espaços mais amplos, frequentou festas, fez programa de televisão e, como é o sonho de muitos, virou colunista social. Com direito a cuiabanês e tudo, um linguajar bastante peculiar. A rainha da saia justa (nos outros) conseguiu se projetar no society e cair no gosto do povo. Aí vieram o compadre Juca, o Gladystone…

Tudo o que a “família” ganhava, aí ficava. Liu viajou, fez novela, mas sempre devolveu à cidade e seus habitantes, o carinho que ela lhe dava. E retribuía este amor, com trabalho e cultura. Teve teatro, casa de show. Nunca deixou de acreditar que nossa cultura é ouro e, como tal deve ser tratada.

Quando viveu no Rio, Liu que, como já vimos, não era bobo nem nada, aprendeu outra lição: a de que ser um profissional de sucesso era mais do que ter talento e muita sorte. Era necessário, também, estabelecer uma relação comercial e organizada com o “público pagante”. A ordenação da atividade cultural, o reconhecimento e a valorização de nosso potencial, que ele pregava e praticava hoje faz parte de qualquer plano estratégico dos que levam adiante a cultura no Estado.

É muito “ava” para o tempo que tivemos Liu ao nosso lado.

Isto traduz o trabalho e o empenho em sua arte.

Foram lições. Foi-se um amigo…O futuro? Melhor, sempre melhor!

Mas sem sua eterna gargalhada depois da velha pergunta, que sempre fazia, quando me encontrava…”Ê a ! Se não é Valéria, sempre gostosona…” Logo eu, tão magrinha e mirrada? Mas era assim que ele fazia com que me sentisse. Gostosona e, como ele, capaz de conquistar o mundo…

Valéria del Cueto

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