Mais dia, menos dias

Mais dia, menos dias

Texto e foto de Valéria del Cueto

Já que (re)começaram as crônicas fico na função de tentar manter o embalo. Aproveito as frestas de dias de sol que surgem entre as nuvens pesadas das chuvas que, volta e meia, despencam por aqui.

Andamos assim nesse início de dezembro e quem disser que está estranhando é por mero desconhecimento básico de causa. Dezembro sempre começa com chuvas e trovoadas.

É Iansã para uns, Santa Bárbara para outros, dizendo a que veio. Dia 4 foi dia do orixá dos raios e trovoadas. Logo amenizadas pela vinda de Oxum, ou Nossa Senhora da Conceição no Rio de Janeiro (Iemanjá em alguns lugares do nordeste) saudadas e reverenciadas no 8 de dezembro.

As diferenças do sincretismo afro-brasileiro, Oxum e/ou Iemanjá, são fáceis de explicar. Assim como lá São Jorge é Oxóssi e aqui é Ogum. No Rio Oxóssi é São Sebastião, padroeiro da nossa sofrida cidade maravilhosa. Pelo sim, pelo não, sejam quais orixás correspondam aos santos da igreja católica, os ventos, chuvas, raios, trovões e tempestades correspondem ao fim da primavera e início de verão.

No momento, os ecos no entorno são dos felizes alunos que chegam ao fim de mais um ano letivo ou conseguem passar nos exames escolares. Uma deliciosa comemoração ainda em princípio de ciclo. Por isso, pouco notada nos espaços que frequento.

A minha praia ainda está viável nesses dias de muitos planos e expectativas de final de ano. Ainda é possível circular tranquilamente pelas areias do Arpoador e Ipanema.

O que mais se ouve por aqui são conversas em espanhol. Mais de duplas ou grupos de amigos do que de famílias. As férias ainda não chegaram. Lembra? O que mais se vê por aqui são as garrafas térmicas, cuias e bombas. O básico do preparo necessário para os adeptos do chimarrão e do tereré.

Essa é uma das melhores épocas para circular pelo Rio e eles descobriram isso…

Aquele momento em que a cidade se anima e se prepara para receber os visitantes. Antes de ficar entupida na semana do Réveillon.

Até o Natal a gente sobrevive, é mais festa local, em família. Sentida especialmente pelos engarrafamentos na Lagoa Rodrigo de Freitas provocados pela “Árvore de Natal” esse ano com a tag #brilhario.

Mas daí pra frente é um Deus nos acuda! Depois vem as crônicas da perplexidade. Quando parece que não caberá tanta gente assim em nosso cobiçado paraíso do caos urbano.

Paraíso até por ali, diga-se de passagem. Porque, lamentavelmente, o Rio não está nos seus melhores dias. Não dá pra ignorar esse fato e só falar maravilhas de um lugar que não anda tão maravilhoso como poderia e deveria.

Ao menos para quem olha a cidade de dentro. Do asfalto e do morro e não da roda gigante climatizada, a “novidade” que engana os trouxas e desavisados mas, como boa peneira que é, não dá para tapar o sol dos desmontes de nossos equipamentos culturais, a ameaça de fechamento do Museus de Arte do Rio, o MAR, a demissão dos responsáveis pela Cidade das Artes, o fim melancólico e gradativo das Lonas Culturais espalhadas pelos subúrbios cariocas, do Imperator…

O enfraquecimento de nossa rede cultural é tanto que o réveillon da Orla de Copacabana (onde rodas míticas dos terreiros de umbanda e candomblé deram origem a festa da virada, conhecida no mundo inteiro), apresentará ao mundo nessa virada de ano um palco de música gospel. Algo está mudando. Para pior.

Mas, como diz o samba da Mangueira, atual campeã do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro, “A ESPERANÇA BRILHA MAIS NA ESCURIDÃO”. E, se nossa voz se fizer ouvida, “A verdade vos fará (mais uma vez) livres”. Mais dia, menos dias…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

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