Não está fácil pra ninguém

Não está fácil pra ninguém

Texto e foto de Valéria del Cueto

Duas coisas me fazem sacar o caderninho que uso para registrar as crônicas. A primeira é a paz na terra na beira de um mar que não pode ser um qualquer. Essa “saída o corpo”, mesmo no cenário paradisíaco que frequento, ultimamente na ponta do Arpoador, nem sempre acontece e se condiciona a certos fatores. Entre eles está a segurança do entorno.

Foi justamente ela que me impediu de sacar o caderninho na última passagem pela praia. Em plena tarde de um sábado com uma lotação até agradável, sob um sol ameno de outono.

Depois de fazer algumas fotos e vídeos dos ambulantes que circulavam anunciando seus produtos, num pedaço pouco frequentado entre a Pedra do Arpoador e o posto 8, em Ipanema, me preparei para puxar a caneta e abrir o caderno.

Antes de começar a escrevinhar chamaram minha atenção dois ambulantes que confabulavam nas proximidades. Entre uma negociação para a troca de um pouco de gelo para o isopor por produto e a avaliação das vendas do dia, o assunto passou pela ação de ladrões que estavam atuando na areia, prejudicando ainda mais a féria do dia. Que já não estava das melhores.

Ligada no bate papo e sempre prevenida, fechei a bolsa, pedi licença e entrei na conversa querendo entender o movimento local. Argumentei que era estranho e fora de época. As férias e a alta temporada já tinham terminado e, na praia vazia, não havia “clientela”, a não ser os locais, como… eu!

“É que ainda não avisaram ao “bloco” que o carnaval já acabou.” A resposta veio em meio a risadas pela metáfora criada por um dos rapazes. O outro explicou: “Isso aqui está largado, dona, a gente sai de perto para não ser confundido com eles.” “Você devia tomar cuidado”, alertou o mais velho, “por isso vim para esse lado”.

Enquanto conversávamos comecei a me “situar” melhor no entorno. Sempre procuro ficar num local com visibilidade ampla e rotas de fuga. Apesar de estar na parte mais estreita da ligação de Ipanema com o Arpoador, onde o paredão é mais alto e, portanto, impossível de ser escalado, montei meu point próximo a duas barracas que, coladas nos grafites que enfeitam a “muralha”, produziam e distribuíam caipirinhas e outros drinks para diversos vendedores que volta e meia passavam para reabastecer as bandejas.

Aliás, essa foi uma das razões que me atraiu para aquela posição. A possibilidade de ampliar as fotos que estou fazendo sobre os ambulantes que passeiam oferecendo seus produtos. A outra foi a escada que dava acesso rápido ao calçadão. Foi o que expliquei para o vendedor que ficou papeando comigo enquanto o outro seguia para a “zona de confronto”, como chamou a caminhada em direção a Ipanema.

Foi ali que fiquei sabendo que os “blocos” podiam ser da área ou de fora e que, provavelmente, só os primeiros respeitam (um pouco) os locais.

Não fiquei chateada quando o vendedor se aproximou e, puxando seu celular, explicou que trabalhava na construção civil. Me mostrou, cheio de orgulho, várias fotos de trabalhos que havia realizado.

Disse que era da Pavuna e que tinha descido para a Zona Sul para deixar seus cartões de visita com um amigo que havia contado que estavam abrindo vagas por aqui na segunda-feira. Que era regularizado e, inclusive, tinha MEI. O problema era ter “capital” para pagar o contador. Aliás, era isso que ele estava fazendo ali. Tentando melhorar o caixa, que andava no negativo.

A conversa continuou até a volta do amigo que foi mais claro em relação a necessidade financeira do parceiro: “Vamos nessa, ainda dá para fazer mais umas duas voltas e, pelo menos, juntar o troco da pensão alimentícia. Se chegar com algum pode ser que a ex patroa não procure a justiça. Você já sabe onde vai parar…”. Imaginem a rapidez com que meu novo amigo se levantou, se despedindo.

A segunda possibilidade de puxar o caderninho, (lembra? Foi assim que a crônica começou) é quando estou numa espera. No caso foi bancária. Contar essa história me fez viajar para um lugar muito mais agradável do que onde me encontro, aguardando para falar com o gerente do banco. Não está fácil pra ninguém…

 

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

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