Pos(s)e real

Pos(s)e real

Texto e foto de Valéria del Cueto

Gente! Que correria é essa? A floresta está um alvoroço nesse início de ciclo animal. É reunião na clareira central. Passagem da coroa para o substituto eleito do regente Vampirão. Esse é o apelido do já saudoso morcego tampão. Ele aguardou penduradinho (de cabeça para baixo), entre folhas e galhos das (ainda) frondosas árvores da exuberante flora e fauna desses trópicos, o momento histórico de passar o comando do reino ao sucessor.

E assim foi. Em meio da panapaná de borboletas azuis quase desfalecidas pelo calor da indumentária da segunda dama, a do vice-rei cabeça preta (vai virar modinha no reino), lá iam eles, o mito e a dama de rosa pelas trilhas da clareira real em busca da taça, quer dizer, da faixa.

Os animais comemoravam a troca de casais reais. E repararam no conselho central, onde as hienas, aves de rapinas e afins, figurinhas carimbadas, permanecem as mesmas para desalento de alguns e expressões entediadas de “eu bem que avisei” de tantos outros. Esses, diga-se de passagem, nem deram as caras para aplaudir o cortejo.

A festa na clareira engalanada para as espécies amigas foi cheia de ufanismo. O único protesto explícito partiu de um equino revoltado que deu “piti” bem na frente do veículo que, tradicionalmente, conduz a realeza ascendente. Corre a boca pequena que foi o cavalo de São Jorge que confundiu a “carruagem” com o dragão. Sabemos, é uma lenda. Um mito, por assim dizer.

Opa! Na floresta, em tempos atuais, chamam assim o novo governante. Como se mito não fosse apenas um ser imaginário. Daqueles que, como os ratos da carruagem da Cinderela, com o fim do feitiço voltam à sua forma original.

Deixa estar, porque o efeito “floresta em festa” passou rapidamente. Não levou uma semana para recomeçar aquela bateção de cabeça de sempre. Só que um pouco diferente…

Meninos de azul e meninas de rosa, cacarejou a responsável pelas chocadeiras e poleiros. Esquecendo que quando o ovo quebra tudo é igual. E quando se “vestem” os filhotes pinto é amarelo, o pato branco, a cobra, vixe, essa tem várias cores.  Os pássaros podem ser coloridíssimos e o cisne cinza depois fica branquinho… Tocou horror no averio. As araras azuis preocupadíssimas. Certas que o-di-a-rão cor de rosa nas crianças. Cada vez mais perto da extinção, reclamam veementemente, prontas para defenderem as cores que dão denominam a categoria araral específica.

De cima da goiabeira, empoleirada esperando Jesus, a protetora das famílias dissemina o disse me disse que corre solto entre interferências atabalhoadas na vida privada das espécies da fauna florestal. Com apoio do mandatário-mor que deu sua contribuição à empreitada da nova colorição animal. O laranja, para desespero das espécies cujos couros pelagens e plumagens tendem para esse tom, foi declarada a cor dos encarcerados. Até hoje tem bicho esperando que a fila do “teje preso” seja encabeçada pelo Queiroz, o que fazia rolo e juntava fortuna e não era conduzindo Miss Dayse…

Em três dias o mito tinha incorporado seu lado animal falando especialmente de economia e finanças. Seu conselheiro econômico se fechou em copas e cancelou compromissos na primeira sexta-feira de governo! Coube ao responsável pelos assuntos reais junto ao conselho de notáveis da clareira informar que o dito era não dito. A lista dos equívocos e macaquices, agora reais, estava oficialmente inaugurada.

A engajada rainha que não pia, mas gesticula, abriu seu novo habitat à “migas”. A residência oficial foi esquadrinhada e divulgada por uma irmã em Cristo. Não do que subiu na goiabeira.  Passou a ser responsável pelos piores pesadelos da segurança mitológica florestal, aquela que até prego pregou nas persianas do conselho por causa do perigo de um atentado na posse real.

O bonde anda, o bonde avança, o bonde toma posições. Com os mesmos passageiros de sempre e o tempero do deslumbramento emergente de mais uma penca representantes da nova dinastia do reino animal.

Os deuses da floresta observam…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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