Lá e cá

Lá e cá

Texto e foto de Valéria del Cueto

Depois de um texto burilado e trabalhado em referências, como o da última crônica “Na luta é que a gente se encontra”, a vontade é de só falar de banalidades para quebrar a linha de raciocínio. E, claro, por saber que é muito difícil ir mais longe na excelência do produto.

Só que ainda me lembro do compromisso que talvez você, leitor, não se recorde: continuar viajando pela fronteira de Mato Grosso do Sul e, quando dá, cruzar para o lado de lá, o Paraguay… Então convido você a seguir pela Ruta 5, em direção a Bella Vista, na província de Amambay, ao norte do país vizinho.

Saindo de Cerro Cora seguimos para a Hacienda Ñe´a. Uma pena que com a pressa (queríamos chegar com a luz da tarde), não deu para ir fazendo paradas para fotografar o relevo que desenha o perfil das paisagens que passaram voando pelas janelas. Um tereré circulava entre as passageiras da aventura: Adriana, Rosanie, Dora e Natália, todas da família Nuñez.

A sede da hacienda é protegida por uma cadeia de montes. Adriana até sugeriu um passeio a cavalo para explorarmos a região, mas declinei. Estava satisfeita com as construções que avistei em volta da linda casa principal. Fora isso, é claro, tive o bom senso de evitar as dores que, certamente, sentiria nos dias seguintes. Não monto há anos!

Quer saber? Para esgotar as possibilidades fotográficas da Ñe´a preciso de muito mais tempo do que a tarde que por lá passamos. Pelo que vi imagino as nuances da luz em diferentes períodos do dia, como o amanhecer e o anoitecer, e as variadas cores da vegetação do entorno conforme mudam as estações do ano. É material para muitas idas e passeios. O visual ainda estava marcado pela estiagem comum nesse período. Isso dava à morraria, especialmente no cair da tarde, tons dourados que contrastavam com a vegetação que renascia.

Ao lado da casa principal uma pequena represa compõe a visão bucólica e serve para banhos refrescantes nas épocas mais quentes do ano. O que chamou a atenção foi a “passarela” de tábuas de madeira usada para as lavadeiras baterem as roupas no curso d´água. Cena típica de tempos e práticas de antigamente.

Depois de mais uma rodada de tereré na varanda da casa principal era hora de um giro pelos galpões, oficinas e a área das moradias dos peões. Trabalhando com o contraste das sombras que se alongavam com o cair da luz fui fotografando a vizinhança.

A câmera atraiu a atenção das crianças que brincavam entre os varais de roupas que secavam ao vento. Uma se aproximou cheia de curiosidade perguntando o que eu fazia. Expliquei que fotografava a hacienda. Outras  foram chegando e pediram para que as fotografasse, o que, é claro, aceitei prontamente. Agora, era um grupinho que fazia pose e me intimava para ver no visor o resultado. Um dos meninos foi buscar uma bola. E dá-lhe clique! Outro, dava ideia de subirem na cerca da mangueira. Aí, a “direção” da brincadeira já não era da fotógrafa…

Nem prestei atenção ao sol que caía rapidamente e produzia uma luz quase frontal perfeita para os registros. Fui andando a procura do ponto ideal para pegar o pôr-do-sol, mas não resisti ao chamando da criançada que dava a dica de outro cenário. Dessa vez na varanda do galpão do estábulo, com arreios e tralhas ao fundo. Arrumei os assistentes perfeitos. Melhor “frente de locação” impossível… Foram eles que me contaram onde as imagens ficariam melhores.  Me despedi dos “eres” explicando que achava que voltaria logo trazendo as fotos impressas.

É o que, creio, acontecerá em breve. É nessa região que pedirei asilo depois dos resultados do segundo turno das eleições. Será a rota de fuga mais adequada para me dirigir nos próximos meses. Vai ser difícil aturar o juiz que, provavelmente, fará dobradinha com o bispo no Rio de Janeiro e a dupla de milicos em posições invertidas que avança sobre a democracia brasileira.

Mas espere, caro leitor, não é agora! Antes cairei no samba num verão carioca inesquecível que terá seu ponto alto no desfile da Sapucaí. Será um carnaval temperado por enredos como “Xangô”, do Salgueiro, e “História pra ninar gente grande”, da verde e rosa. Esse contará ao Brasil e ao mundo quem são os verdadeiros heróis populares do país que não está no retrato ritmado pelo surdo de primeira que marcará os 60 anos da Bateria da Mangueira! E eu? Estarei lá…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Das séries “Fronteira Oeste do Sul” e “É Carnaval”, do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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