Ninguém me tira

Ninguém me tira

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Passando rapidinho. Que nem o sol andou fazendo nesse estranho verão carioca. Vai e volta entre nuvens e chuvas do céu do Rio de Janeiro. Bem de acordo com o(s)humor(es) da entidade que regerá o ano da graça de 2018. Falo de Iansã, a rainha dos ventos. Tá puxado! É quase carnaval e falta tudo. Saúde, segurança, educação e dinheiro no bolso. Sobra humor.

Antes de chegar na praia cruzo com muitos “empreendedores”. Carregam nas mãos placas de isopor recobertas por película prateada. Cada placa –são várias empilhadas– comporta quatro recipientes de… quentinhas! Como desembarco tarde no pedaço e vejo vários vendedores andando no sentido contrário deduzo que o horário de almoço terminou. Se dirigem ao ponto de encontro para o acerto de contas da féria do dia.

Na areia permanecem outras ofertas para alegria dos turistas que consomem de tudo um pouco: picolé, camarão, caipirinha, pau-de-selfie, óculos fajutos, queijo coalho, cigarros, cuscuz, brincos e pulseiras, biquínis, cangas, açaí…

Tudo que procuro é um espaço na praia superlotada. Não paro, nem penso. Embico para o lugar onde há lugar. É aqui, da Praia do Diabo, que conto as últimas sobre o Rio e o carnaval. Apropriado, não acha?

2018 já é o um verão inesquecível. Esse é o verão da falta. Para começar, dos ensaios técnicos da Sapucaí. Que falta estão fazendo na alma foliã da cidade! Olha que Deus castiga quem ousa interferir e inventar moda na festa que é do povo. Para o povo.

A segunda ausência é por falta de que mesmo? Não é de dinheiro. O que faltou para o feijão com arroz dos ensaios para maior espetáculo da terra na Passarela do Samba Darcy Ribeiro sobrou para a nova invenção anunciada e, depois, adiada da Riotur, do Prefeito Crivella.

A Arena do Carnaval no Parque dos Atletas, na Barra, onde blocos e escolas se apresentariam nas manhãs de carnaval, subiu no telhado semanas antes da folia.

A cereja do bolo do carnaval 2018, o blocódromo, foi transferida para julho. Ficamos sem Arena, sem os ensaios técnicos e com o dindim guardadinho na conta da cidade até julho. Uma nova forma de gerir recursos. Tipo uma roda quadrada para ser empurrada no meio da guerra conflagrada e da pobreza no Rio. Pelo menos ninguém mais vai esperar o prefeito para entregar a chave da cidade a quem de direito no Reinado de Momo.

Dá para adiantar algumas tendências da temporada. Aquela que será lembrada como “o ano em que a Rede Globo tentou provar por A+B que carnaval bom mesmo é… o de São Paulo!”. As vinhetas dos sambas das escolas cariocas do Grupo Especial são de chorar. Se equiparam a pobreza requentada da recatada Globeleza do ano passado. Nivelaram por baixo.

Nas ruas o sem dinheiro se reflete na simplicidade (o que incentiva a criatividade) dos adereços mais vendidos. Tiaras de flores? Old fashion. O hit são os arcos de cabelo com chifrezinhos de Unicórnio. Singelos saiotes de tule colorido com mais ou menos glitter e purpurina estão nas cinturas ou se transformam em outros adereços, como golas e perucas.

No quesito musical não há pobreza. Crivella é quase pule 10. Pau a pau com o “Libertador”. É Mato Grosso na fita e nas imagens, aguardem. O Ministro Gilmar Mendes, é o muso lacrador. Está em quase todas. Em algumas, como astro principal. “Alô, alô Gilmar, eu tô em cana, vem me soltar… Eu roubei, eu roubei, eu roubei, não estou preso atôa… Mas no mundo não há quem escape, de uma conversinha boa!”, explica o lendário João Roberto Kelly, autor de pérolas carnavalescas como “A cabeleira do Zezé”, numa uma singela marchinha, das várias que o citam e homenageiam. Entre tantos, um refrão caiu na boca do povo: “Ô seu Gilmar, ô seu Gilmar, tá soltando todo mundo, só não solta o Beira-mar”.

Essa é a autêntica irreverência carnavalesca. A que tira sarro de seus desafetos: o que solta e o que se empenha, numa cruzada “evangelizadora”, em tentar dobrar o indomável espírito folião carioca. Não vai rolar. Aguarde as ruas, não perca a Passarela do Samba…

As marchinhas citadas:

De João Roberto Kelly, “Alô, alô, Gilmar”

Boca Nervosa canta “Alô Gilmar”

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série “É Carnaval”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

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