Ação e reação, intolerância não!

Ação e reação, intolerância não!

Texto e foto de Valéria del Cueto

 

“Ó meu Brasil
cuidado com a intolerância
tu és a pátria da esperança,
a luz do Cruzeiro do Sul.
Um país que tem estrela assim tão forte
não pode abusar da sorte
que lhe dedicou o Olurum.”

(“Alabê de Jesusalém, a saga de Ogundana”, samba da Viradouro, carnaval 2016, baseado na ópera de Altay Veloso. Compositores: Paulo César Feital, Zé Gloria, Felipe Filósofo, Maria Preta, Fábio Borges, William, Zé Augusto e Bertolo)

O alerta dado há dois anos atrás no carnaval carioca deixou de ser premonitório e se torna, a cada dia, uma triste realidade no Brasil. Atos de intolerância se multiplicam e se espalham por vários pontos do país. O preconceito explode em diferentes setores. Entre eles, o religioso.

O capítulo mais recente dessa triste história que ainda estamos escrevendo foi o vandalismo praticado contra o busto de Chico Xavier, no cemitério São João Batista, em Uberaba, Minas Gerais. O vidro blindado que protege da obra foi danificado por pedradas ou tiros, no sábado, 30 de setembro. Os autores não foram identificados.

Re-ação

A toda ação corresponde uma reação. Aqui no Rio de Janeiro ela vem ocorrendo na mesma proporção em que a intolerância religiosa se manifesta e, coisa dos tempos atuais, é registrada em gravações distribuídas pelas redes sociais como troféus de uma cruzada obscurantista de preconceito e violência.

Da 10ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa que reuniu milhares de fiéis na orla de Copacabana, no domingo 17 de setembro, participaram representantes de religiões de matriz afro-brasileiras e lideranças de igrejas cristãs, das comunidades judaica, kardecista, budista, wicca…

Mais do que ser uma celebração da convivência pacífica entre a maioria das religiões realizada há uma década, esse ano a mobilização teve um apelo recorrente: a punição dos ataques a terreiros de matriz afro-brasileiras.

Filme antigo

Na Primeira Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa de 2008, protesto idealizado depois de denúncias de que traficantes estariam proibindo terreiros em favelas e após o ataque a um centro umbandista, Marcelo Crivella, então candidato à prefeitura do Rio pelo PRB, apareceu de surpresa no protesto e se posicionou. “Minha rejeição como político vem da intolerância de pessoas que não aceitam que eu seja evangélico”, disse o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

Em março de 2016, como representante do estado do Rio de Janeiro no Senado Federal, Crivella cobrou a adoção de medidas corajosas para evitar o radicalismo das religiões no pronunciamento da tribuna em que homenageava cristãos mortos num atentado no Paquistão. Ele lamentou os atos de violência contra muçulmanos no Brasil apelando à tolerância religiosa e a convivência pacífica entre todos os credos. “ Eu gostaria de lembrar que a única guerra, o único combate legitimado por Cristo é o combate contra si mesmo, é a luta contra o medo, contra as hesitações, contra as tentações, contra as fraquezas. É a única luta que se prevê no âmbito da fé. Qualquer outra é movida pelo orgulho, pela prepotência. E eu digo mais: pior pecador é o acusador”, explicou.

O agora prefeito além de não comparecer a décima edição da Caminhada, através de medidas de controle que dá a seu gabinete o poder de autorizar ou negar a realização de qualquer evento na cidade, também se tornou alvo dos protestos e das mobilizações que se multiplicam em setores da sociedade carioca.

Intolerância na roda

Este será também o mote de dois fóruns de debates nos próximos dias no Rio de Janeiro.

O primeiro será (mais) uma audiência pública na Assembleia Legislativa, dia 05 de outubro, às 10h, com o tema “Intolerância religiosa e os recentes ataques a terreiros de religiões de matrizes africanas”, promovida pela Comissão dos Direitos Humanos e Cidadania, presidida pelo deputado Marcelo Freixo, do PSOL.

Diversidade e respeito serão conceitos que darão a tônica do encontro ecumênico. Nele, se reúnem durante o final de semana representantes de 17 religiões, autoridades como o Presidente da Fundação Palmares, Erivaldo Oliveira, o secretário estadual de Cultura, André Lazaroni e personalidades como o apresentador e carnavalesco Milton Cunha. Eles participarão da primeira de muitas mesas de palestras. Esta, terá como tema “Diversidades (religiosa, sexual, cultural e social)”.

Ensino laico ameaçado

Para a organizadora da EXPO Religião, a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de que professores de ensino religioso em escolas públicas promovam suas crenças em sala de aula será mais um assunto na pauta das discussões. “Agora nossa responsabilidade é maior. Precisamos mais do que nunca lutar pelo respeito e pela diversidade religiosa. Tendo em vista que hoje em sua grande maioria os professores são de uma única religião, essa decisão coloca em risco o livre arbítrio”, posiciona-se Luzia Lacerda, diretora e idealizadora do evento, considerado a maior feira do segmento na América Latina.

Temperando essas questões e integrando os visitantes, apresentações e novidades em produtos e serviços religiosos no Espaço Gastronomia, com stands de comidas, Espaço Oráculo, com práticas adivinhatórias como búzios, tarô, além do Espaço Zen com terapias alternativas, como a holística. Tudo ao ritmo de shows musicais, sempre às 18h, e de danças nos intervalos entre as atividades no decorrer do dia.

Para abrir com o pé direito, todas as bênçãos e o axé que precisa para ter êxito, a EXPO Religião receberá, às 13:30h do dia 06 de outubro, a visita da imagem de Nossa Senhora Aparecida Peregrina, como parte da comemoração dos 300 anos da Aparição da Padroeira do Brasil.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa matéria faz parte da série “Arpoador” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

 

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