Só dá mais uma

Só dá mais uma

Texto e foto de Valéria del Cueto

Ação!

Complicado abandonar assim para toda a vida um companheiro inseparável de tantas jornadas. Daqueles que andam colados com a gente em qualquer situação.

Com esse subi e depois desci o Brasil em busca das tantas histórias que você, leitor, teve a sorte de apreciar por aqui.

Foi um tempo enriquecedor e transformador, verifico ao checar seu registro inicial. Passear aleatoriamente por suas páginas me transporta para outros mundos, várias ideias, anotações curiosas, um tempo para atrás, alguns planos para a frente.

Nesses anos já tentei sem sucesso várias técnicas para evitar inconscientemente o final desse amor que acaba sendo temporário, substituído que é por outro exemplar, nem sempre tão adequado mas, certamente, essencial nas minha humilde vida literária.

A última separação foi adiada mas, como você verá, não evitada com um artifício primário. Quando notei que o momento do desapego se aproximava, acreditem, passei a ter dois companheiros em vez de um só. A intenção era ir me acostumando com as características que marcariam o futuro próximo, enquanto praticava um desapego lento e gradual do caso que chegava ao fim.

Verdade. Peguei os dois paralelamente   para evitar uma fria troca, apegada que estava ao mais antigo, procurando postergar seu inexorável abandono.

Deu ruim porque perdi a ordem cronológica dos fatos narrados. Embaralhados ficarão para a posteridade na prateleira da estante. Provavelmente, inclusive, amarrados por algum barbante no espiral para não se desencontrarem, o que seria problemático em caso de consulta ou recaída nostálgica.

Falhei sim, e pagarei o preço da inconstância no futuro. Claro que acabei chamando urubu de meu louro e as consequências são inevitáveis, reconheço, mas fazer o que?

Assumir o subterfúgio quando ele se tornar aparente e agir com toda a dignidade e respeito quando o fim for definitivamente inadiável.

E, lamento dizer, não importam os nossos momentos de felicidades, as aventuras que vivemos juntos, nossas lembranças comuns. Apesar de ter adiado o quanto pude, é quase hora de dizer adeus.

Que seja rápida enquanto dure essa passagem cheia de nostalgia, gratidão e agradecimentos. Não só pelo que revelamos juntos mas, também, pelos segredos que compartilhamos no silêncio de nossa memória cheia de cumplicidade.

Agora, aperto algo além do meu coração, encolho as letras, diminuo o tom. Descobri que não! Ainda não chegou a hora do abandono.

Contanto que não erre nem rabisque para começar de novo, acabe com espaços e parágrafos aqui, no caderninho de quem me despeço, ainda haverá espaço para mais uma crônica, outra história, renovados desejos e alguns sentimentos.

Pena que na vida, nem sempre seja possível ter a escolha de mudar sem pestanejar ou adiar ao máximo a troca dos nossos caderninhos, aqueles em que ficam registrados atos, atitudes e posturas.

Conheço muita gente que nesse momento, daria tudo para poder destruir de seus registros de vida pregressa, algumas páginas, quem sabe capítulos e até tomos inteiros de informações e relatos.

O que é o mundo moderno. De nada adiantaria! Se aquilo que está escrito pudesse ser esquecido haveria uma grande chance de estar gravado num vídeo clandestino  deste estilo big brother palaciano que tem mostrado ser de mil e uma utilidades. De material para futura chantagem e/ou garantia de pagamento a, quem sabe, apenas um registro nu e cru da monstruosa realidade.

Diga-me por onde andas e te direi quem te grava…

Corta!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador” do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

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