Será um novo dia?

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Nada nem ninguém pra contar a história. Não por falta de material. Pelo excesso de informações. Elas não param de chegar e, se não há tempo hábil para processá-las, o que dirá analisar as consequências dos fatos que se atropelam. Nem mesmo os intergalácticos equipamentos sofisticados de Pluct, Plact, o extraterrestre dão conta do recado! Resta apenas um caminho entre o ovo e a galinha. Voltemos ao caderninho. Sim, porque quando a tecnologia falha, a solução é o retorno estratégico ao início do princípio. Filosofe, analise, projete, imagine… Utilizando as ferramentas mais primárias.

Papel e caneta que é pra manter acesa a chama do recorde quase olímpico de umas quatro centenas de crônicas. A conta exata, nem Pluct, Plact com seus cálculos e registros consegue precisar. Nada de mais, se considerarmos que esse mesmo sistema é o que leva à utilização do instrumental primário já citado da caneta/caderninho. Tudo foi falhando aos poucos num efeito dominó. Computadores, tablets, internet…

É nessas horas que dá uma preguiça danada e a inércia torna o movimento em direção a mais uma crônica quase um rolar de pedra ladeira… acima. Primeiro, uma viagem rumo ao centro do continente sul-americano foi uma boa justificativa para falhar uma semana. Admissível. Depois, o feriadão obrigando a quebrar o dia da semana costumeiro. Ninguém notaria a ausência. Perdoável. Mas… uma terceira engasgada não daria para deixar passar. Todos notariam a realidade que não quer calar: as crônicas não fazem falta nenhuma. Ausência que sequer seria notada!

Não. Isso o ser intergaláctico não poderiar deixar acontecer. Não por ele. Certo, seguro e convicto de sua existência e missão de viajante espacial e observador das galáxias. Mesmo ciente de sua atual condição de imobilidade terráquea, provocada pelo mau uso e distribuição das forças gravitacionais que o prendiam aquela que parecia ser a maior odisseia político, econômica, social que havia presenciado em seus milênios de viagens siderais.

A pedra de toque a diferenciar esta de tantas outras aventuras era tão simples quanto andar a pé. Tão pura como fonte de água cristalina. Tão singela e comovente como uma lágrima de alegria. A necessidade de manter viva a lembrança de que lá, do outro lado do túnel, numa cela pequenina, em seu isolamento consciente e voluntário havia uma cronista entrincheirada e resistente aos inacreditáveis fatos que se sucediam do lado exterior. Por isso o sistema precário de escrivinhação se fazia necessário. Era imperioso que o mundo soubesse que sim, ela ainda existia, estava lá.

O que o movia era algo desconhecido até encontrar as antigas crônicas e ter a curiosidade de conhecer sua autora: a amizade acima de quaisquer circunstâncias. Lera, analisara e entendera as centenas de textos produzidos antes de encontrá-la e vira que, em algum momento, o que estava se desenhando em suas reflexões, tornara-se um peso quase insuportável diante da concretização de suas mais estapafúrdias suposições.

E, quando todos achavam que era impossível acontecer, fez o pacto de ser seu contato com o mundo (i)real. Jurando preservar sua frágil sanidade mesmo quando a desumanidade e o improvável que ela havia previsto em suas piores premonições se tornassem realidade.

Agora já não se preocupava mais com as notícias que  provocariam ondas de risadas enlouquecidas. Elas ecoariam pelos corredores protetores. Tudo, estupros, golpes, acidentes aéreos, mortes estúpidas dos que navegavam em busca de refúgio, tiros, bombas e afins era apenas a desumanidade explodindo conforme acontecia ao fim de cada era, multiplicada exponencialmente pelas maravilhas tecnológicas em uso.

No más a fazer para evitar o desenrolar dos acontecimentos. Fora assim com maias, egípcios, gregos, romanos, com os deuses astronautas! Mais uma civilização fadada a seu destino escrito nas estrelas. A ele cabia apenas amar e preservar a estrela que ali, naquela cela, olhar perdido diante de todas e tantas mazelas, continuava empenhada em sua missão impossível de acreditar na esperança que nem ela própria  alcançará. Realidade dura e cruel de um tempo em que a ficção e a imaginação deixaram saudades…

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

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