Eu, muro

RParAvBR 141013 054 Avenida Brasil muro BrasilEu, muro

Texto e foto de Valéria del Cueto

Hoje é véspera de qualquer coisa. Ninguém calcula  muito bem de que. Mas é a véspera.

De um amanhã incerto e não sabido. Recheado de muitas tensões e decisões.

A falsa escuridão da noite tremula iluminada por reflexos roubados das janelas vizinhas enfileiradas nos edifícios.

Embalando o pensamento, ronronados dos motores dos aparelhos de ar-condicionado ritmavam um quase mantra constatação: “aquilo nunca havia visto e, pelo visto (que preferia não visto), muito além não veria”.

Os grilos do gramado conversavam quebrando a monotonia da espera. Faz de conta que são só eles por aqui.

Era ato com hora marcada. Muita torcida e barracas para pouca arquibancada.

E um jogo. Em que, no seu desenrolar, não poderá sofrer interferência externa. Quem decide está lá dentro. Para o bem ou para o mal. O problema é a coisa e tal, o lado que pouco conta e faz muito barulho: o de fora.

Mas afinal, como enquadrar cada qual com seu igual? Eles se misturavam com muita facilidade e relativa intimidade. Chegavam a provocar reações alquímicas, dependendo da dosagem de cada elemento.

E, assim, foram felizes. Até que começou a rolar um desgaste no composto. Um desacerto na relação que afetou o funcionamento das instituições, levando ao amanhã quase hoje.

Fora, o mundo todo parece protestar. Aqui, falanges divididas por um fino e frágil muro que nem de arrimo é, não tem culpa de nada e teme, naturalmente, sua integridade física. Diante do entusiasmo da multidão que ele separa o que esperar?

“Tarefa ingrata! Se pelo menos me pintassem de flores, colorissem de amores e me usassem! Fizessem de mim, muro divisório, mural de sugestões. Registrando e expressando bons votos para todos nós, especialmente para esse tal de Brasil e para mim…”

E os gritos que ultrapassarão a barreira, lançados de um  lado para o outro?

“Pra que?”, se pergunta o muro (sim, ele mesmo), do alto de sua longa extensão, cheia de perspectivas e pontos de fuga.  “A realidade é que ninguém estará aqui para escutar ninguém. Todos querem impor seus pontos de vista na marra. Quanta energia desperdiçada!”

Mas vá lá, “seja o que Deus quiser”, se conforma. Tomara ele, muro, conseguir controlar as paixões e frustrações acumuladas que, prometem, levarão multidões às ruas do país.

Que seja tudo por e com um amor maior: o Brasil.

Que, em algum momento do dia, cada um dos cidadãos  cheios de moral (ui) e cobertos de razão (ai) que se digladiam em nome de ideologias e idolatrias consigam elevar seu pensamento e desejar o melhor para nossa gente.

Toda gente.

Então, fica aqui mais uma modesta  e utópica sugestão: no domingo não seja muro que divide, reinvente sua postura. Seja energia que agrega.

Não mentalize o mal alheio. Pense na coletividade.

Bloqueie a negatividade. Dirija suas energias para quem está – em última análise – agonizando no meio dos desdobramentos sempre surpreendentes da crise. Sim, é ela e aqui estou, por enquanto, ainda muro!

Não há milagres para se esperar. Há que trabalhar, (re)construir nosso amor próprio de amar e, se possível, fazer do muro, futuro!

* Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “Fábulas Fabulosas” do Sem Fim…

** a foto é do ensaio Rio-Parati-Rio da janela

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