É a lama

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Texto de Cassio Novo e Valéria del Cueto

Cassio Novo “Não há nada, no atual momento, mais ensurdecedor do que o criminoso silêncio da mídia sobre o desastre ambiental na maior bacia hidrográfica da região sudeste do país! Percebam que nem coloco em destaque a questão da atribuição de culpas e responsabilidades (expediente usual da nossa imprensa). Mas à inexistência da cobertura. Qualquer que seja. Silêncio criminoso. Aviltante. Perturbador.”

Valéria del Cueto “Há sim. O silêncio de quem flexibilizou a concessão de licenças ambientais, desmontou as agências fiscalizadoras e criou facilitadores para a distribuição indiscriminada de recursos públicos e incentivos fiscais para o “desenvolvimento industrial” visando a aceleração econômica em detrimento da proteção ambiental, meu querido geógrafo.”

C.N. “Minha querida jornalista, não ignoro tudo isso. Inclusive por ter vivido, à época, em empresa gigante do setor de geração e distribuição de energia, estas mudanças e ter sido testemunha (e refém) de tudo isso. Como geógrafo com especialização em análise ambiental e mestrado em cultura e natureza, como consultor ambiental com anos de experiência na área, sei bem do que você está falando. Tudo isso que você lista, acertadamente, só torna o silêncio da mídia ainda mais criminoso. Porque não foi noticiado à época. Não vem sendo monitorado. Não é pauta. E não se utiliza tudo isso para embasar as notícias e reportagens que NÃO estão sendo feitas sobre o desastre. As ações (e ausência de ações) do governo fazem parte de um todo. Cujo desdobramento, perverso, é isso aí. E muito mais (que sequer chega aos olhos e conhecimento da sociedade e do público). Mas repito e reforço: no ATUAL momento, de acordo com o que escrevi lá em cima, não há nada mais ensurdecedor do que o silêncio.
O governo (não este ou aquele partido, mas O Governo) é refém dos interesses de gigantes que operam na transformação da natureza. Basta que estejamos atentos aos muitos milhões de reais (além dos favores e privilégios) distribuídos entre tantos parlamentares e partidos “oferecidos” (investidos) por boa parte, senão a totalidade, das maiores empresas em operação. O governo é co-responsável pela tragédia. Pelos motivos por você listado e tantos outros. E é compreensível (não quer dizer que seja correto ou aceitável) que se blinde e se esquive de responder ou se pronunciar. É uma das principais partes interessadas (por qualquer que seja a abordagem) no âmbito do ocorrido. Não falar é fazer a poeira abaixar, não colocar lenha na fogueira, não dar oportunidade para que se descubram ainda mais “ilícitos”. E, justamente por tudo isso, deveria ser impelido a abandonar o silêncio covarde (e também criminoso) por uma imprensa sabedora e defensora do que é o cerne da sua existência: conhecer, informar e comunicar.”

V.d.C. “Meu geógrafo… Por que acha que respondi a sua postagem? Por saber que desse mato ia sair coelho! Jornalistas com “J” maiúsculo estão demitidos, boa parte processados e a maioria alijada dos meios de comunicação. Aqueles, bancados essencialmente por verbas públicas. A prática se tornou exponencial de 2002 para cá. Tipo assim “à la Stalin”. Só que abrangendo várias correntes partidárias coligadas aqui e ali, unidas por intere$$e$ maiore$.
Parti para a produção de conteúdo independente obviamente não remunerado. É No rumo do SEM FIM… entre crônicas carnavalescas, reflexões da Ponta do Leme e os delírios das Fabulas Fabulosas que vou driblando a ignorância, evitando os processos que quebram os independentes e registrando carinhosamente, com bom humor e alguma esperança, meu testemunho desses tempos.  Atente para o detalhe que me refiro a jornalistas e não divulgadores de releases e informações sem checagem. É claro que existem honrosas exceções. Não dá para generalizar.   Agradeço por suas provocações que me levam a falar de coisas que foram essenciais na minha formação e hoje não têm mais espaço para serem discutidas.”

C.N. “Não há o que agradecer, Valéria del Cueto! Sigo acompanhando com interesse e admiração o seu trabalho. Há tempos. E sigamos nos provocando e provocando os matos. Tem muito mais do que cachorro pra ser”

*Cassio Novo é geógrafo, especialista em análise ambiental e gestão do território e doutorando em Geografia, Cultura e Natureza no PPGEO/UERJ.

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Crônica da série “No Rumo” do Sem Fim…

E3- ILUSTRADO - SABADO 14-11-2015

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