Realidade imaginária

Arpex PAN 150609 003 Arpex e 2 irmãos panorâmica

Realidade imaginária

Texto e foto de Valéria del Cueto

Pluct, Plact, o extraterrestre preso na atmosfera por falta de força propulsora para vencer a etapa ozônio das camadas de escape da órbita terráquea, lia e relia “Pensamento escrito”. Analisava a narrativa da semana anterior criada pela cronista para a série “Arpoador”.

Havia estudado, é claro, o comportamento humano antes de embarcar na missão que o trouxera para essas quebradas da Via Láctea. Mas, por mais que estivesse preparado, continuava achando incrível um traço da raça humana: a tal da imaginação. Só ela poderia fazer que sua amiga cronista, presa há várias luas numa cela do outro lado do túnel, compusesse sua obra capaz de  fazê-lo se transportar para o banco de cimento, na Ponta do Arpoador, quase na Pedra, descrito pela autora. Era efeito do tal pensamento escrito…

Na sua fase preparatória para a jornada entre as estrelas e seu desembarque por aqui sempre tivera uma enorme curiosidade: conhecer os livros. Objetos feitos de folhas de papel produzidas com material extraído da natureza. Perguntava-se o que havia de especial para serem protegidos por guardiões através dos tempos em lugares tão espetaculares e bem frequentados como a Biblioteca de Alexandria, fonte de sabedoria e estudos desde o terceiro século antes de Cristo até a Idade Média. Entendeu tudo interagiu pela primeira vez com um livro. No seu caso, “O Morro dos Ventos Uivantes”,  de Emile Brontë, escolhido, é claro, pela tão ensandecida quanto cronista.

Não era apenas seu conteúdo que fazia do objeto um tesouro a ser descoberto. Havia mais. Aroma, peso, consistência. Robustez, em alguns casos, e fragilidade em outros. Ler um livro – descobriu – pedia postura, concentração e foco. Para que o mergulho fosse completo. O incrível é que a sua magia não pode ser substituída por outras formas ditas modernas de leitura. O que explicava, por exemplo, a mania de alguns “livráticos” de difundi-lo como fosse possível!

Curioso, Pluct Plact fez questão de verificar in loco a ação libertadora de um viciado em livros ao acompanhar as estripulias do projeto “Inclusão Literária”, capitaneado por Clóvis Matos, um Papai Noel que resolveu extrapolar suas funções e viajar por Mato Grosso distribuindo livros! Em 10 anos, 25 mil foram distribuídos em meio a contação de histórias, brincadeiras e outras formas de atrair novos adeptos.

Foi justamente neles, nos livros, que teve a oportunidade de encontrar exemplos incríveis do que era a tal e poderosa imaginação. A que explica a capacidade de sua amiga extrapolar a realidade e quebrar as barreiras que a mantem recolhida do outro lado do túnel. Afinal, se Júlio Verne – autor que, para Pluct Platc, sempre seria uma referência-, havia descrito uma “Viagem ao Centro da Terra” e os monstros e máquinas das “20.000 Léguas Submarinas”, baseado apenas nas projeções e ilações de seu pensamento escrito, por que a cronista não poderia sair da cela e ir olhar o mar do Arpex, ouvir música e lagartear ao por do Sol do lado dos prédios do Leblon, na linha do Morro Dois Irmãos? Tudo era possível na imaginação…

O que o trazia de volta para o velho dilema: valeria a pena abrir o jogo da realidade na sua próxima visita à cela da amiga? Seria possível convence-la que os fatos reais pareciam saídos de uma obra produzida por uma imaginação privilegiada a ponto de, por exemplo, aventar a possibilidade da queda da maior corporação esportiva do planeta, a tal de FIFA, com direito a xilindró e tudo?!

Com o espaço acabando preferiu não puxar outros exemplos, como a atualização convencional dos culpados das mazelas brazucas. FHC, coitado, foi chutado para escanteio. A bola da vez é Obama, responsável pela crise, inflação e corrupção no  país onde o boi voador recebeu ordem de prisão e as demissões da imprensa acontecem por que “o po(l)vo não acredita mais em mentiras”.

Melhor deixá-la com a visão distorcida de uma panorâmica paradisíaca do Arpex para distraí-la no final de semana. Enquanto aproveita para explorar as festas juninas e tenta entender o efeito Santo Antônio nas moçoilas casadoiras…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

E3- ILUSTRADO- SABADO 13-06-2015Edição Enock Cavalcanti

Diagramação Nei Ferraz Melo 

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