Pensamento escrito

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Pensamento escrito

Texto e foto de Valéria del Cueto

Dias antes e a fazeção da semana já começa a interferir na forma de pensar desta cronista.

A busca pelo tema, a escolha da melhor linha a explorar diante das possibilidades das séries do Sem Fim… e suas características. Contemplativas para “Ponta do Leme” e “Arpoador”, carnavalescas da “É Carnaval”, as alegóricas “Fábulas Fabulosas” dedicadas ao incrível noticiário capturado pelo  extraterrestre e as aventuras da floresta e seu reino animal. Tudo vai para o prato para ser pesado na balança criativa.

As possibilidades que vão surgindo começam a ser – uma (sorte grande) ou (quase sempre) muitas – escritas em pensamento, numa caligrafia imaginária no caderninho irreal. É preciso afinidade.

Quando a ideia se sustenta vai se acomodando, desvendando seus argumentos, atiçando a curiosidade sobre possíveis informações pertinentes. Se espalhando pelos cantos da memória a ponto de deixa-la quase sorumbática de tão concentrada.

O pensamento escrito vai ocupando espaço na mente e diante desse turbilhão envolvente ou da escassez avassaladora de opções uma utopia sempre surge: o dia em que bastará pensar para que o pensado se transmute automaticamente em escrita. Não precisa de perfeição, apenas das referências principais.

É, porque no caso dessas crônicas, em sua maioria, ainda rola a dupla jornada de escrevinhar no caderninho da vez – num lugar, se possível, especial para o bem (Ponta do Leme, Arpoador) ou para o mal (fila de banco, sala de espera) para, depois, digitar no computador. É muito para um singelo e despretensioso texto!

O pensamento escrito é tão poderoso que faz o “dominado” esquecer o entorno para tentar recapturar o que rascunhou a caminho da praia ensolarada no feriado de outono. A palavra pensada no último quarteirão da Bulhões de Carvalho, no pé do túnel da Barata Ribeiro, em Copacabana, início desse texto, sobrepuja até a música executada no violão dois bancos adiante, já na ponta do Arpoador quase na pedra.

“Hoje o samba saiu, procurando você. Quem te viu…”

O chamado é quase irresistível, mas ainda não o suficiente para desviar a atenção do desenrolar da crônica.

“É linda essa música” diz o tio para o sobrinho que se prepara para um mergulho com cara de quem não tem a menor ideia do que se trata o cantaroladar pelo mais velho.

O pensamento escrito começa a falhar distraído pelo sentido traidor da audição. Atraído e embalado pelo ponteio do violão, busca as notas para identificar o solo dedilhado, início de uma nova canção.

Quase como o pensamento escrito abandonado ele também não deu em nada e o cantor violeiro mudou o rumo da música, como quem muda o rumo da prosa. Assim, sem maior cerimônia.

Tão frágil e insegura é a linha da inspiração que conduz esse alinhavar de meias ideias e alguns ideais, essencial para subtrair da realidade a cronista que se esforça para satisfazer sua sede de contar.

Mesmo que no embalo de “Amigo é para essas coisas”, o diálogo dos amigos se encontram no desencontro da  vida. “Na morte a gente esquece. Mas no amor a gente vive em paz… O apreço não tem preço, Eu vivo ao Deus dará…”

E foi por ele. Ou o sol, a praia ou o mar e o feriado que me trouxera  para cá com a incumbência de todas as crônicas, que acabaram trançados pedaços de histórias, memórias repartidas. Pensamentos semeados em duas laudas publicadas a cada semana e colhidos por você, caro leitor. A quem só tenho a agradecer a paciência e  permanência. Bom feriado!

* As músicas citadas são “Amigo é para essas coisas e “Quem te viu, quem te vê”, de Chico Buarque

**Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

E3- ILUSTRADO - SABADO 06-06-2015

Edição Enock Cavalcanti

Diagramação Nei Ferraz Melo 

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