Mesmo filme noutra praia

Mesmo filme noutra praia - Arpoador

Mesmo filme noutra praia

Texto e foto de Valéria del Cueto

Escrever implica em pensar e era isso que não queria.

Não bastava o azul do céu refletido nos tons das águas que de espelhadas no início da semana se transformaram no mar agitado a frente?

A comilança das areias desaparecidas após inúteis protestos e pouca resistência em forma de pequenas falésias, barreiras frágeis para o avanço guloso dos mares?

Quase não havia mais praia naquele canto. Pedras inimagináveis se revelavam com a cavada sistemática do oceano em direção da orla.

O fenômeno se repete a cada ano alterando a paisagem do cartão postal carioca. De um lado é pedra, a do Arpoador. Depois vem o Atlântico. Do outro é montanha. Os Dois Irmãos e a Pedra da Gávea emolduram o contorno das praias de Ipanema e do Leblon. O Vidigal, lá na extremidade, observa o movimento do ponto de vista oposto.

O melhor fator agregado hoje ao cenário foram os surfistas e bodyborders. Sem ondas e com uma temperatura para lá de gelada da água translúcida, eles andavam apenas observando, sem sequer baixarem as pranchas para a areia.

Ali o espaço era exíguo. No mar, elas eram desnecessárias sem marolas e ondulações, só mesmo standup e no início da semana a procura era nenhuma.

Agora as ondulações encrespadas faziam a alegria dos esportistas. Todos com roupas de neoprene para a proteção contra a temperatura da água.

Se a situação da nesga de areia já era minguada na calmaria, se agravou com a subida das ondas. Abusadas e a caminho do pico mais alto da maré ultrapassavam as barreiras do desnível de areia, empurrando os banhistas em direção ao muro de pedra caso quisessem, – e muitos queriam – estender cangas, abrir cadeiras e guarda-sóis para amenizar o calor no fiapo de areia.

Estava criado um problema filosófico, tipo “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”

Acontece que não havia espaço os barraqueiros ocupantes da área e a possível e desejável clientela. O que adianta a oferta se não existe lugar para a procura dos itens de desejo: cadeiras, barracas, bebidas e petiscos? (não necessariamente nessa ordem). Como acomodar os banhistas turistas e locais?

Hoje só tem uma barraqueira, se equilibrando para não descer o barranco entre uma canga e outra, atendendo os poucos possíveis fregueses imprensados ente o paredão de pedra e o mar forte, puxando e gelado…

Um apito soa enérgico do alto da plataforma do Posto de Salvamento enquanto o salva-vidas gesticula acenando para um desavisado que se encaminha para a área onde estão as melhores ondas, sem reparar na boca da vala que o puxará em direção a mar aberto.

Nada que um dos surfistas bem intencionados e sempre solidários não possa resolver remando em direção ao afoito e escoltando o banhista para fora da zona de perigo. Após um alerta merecido, naturalmente.

Outro barulho intervém no resmungo impaciente e agressivo das ondas. Primeira dedução: acabou o horário de almoço da peonada. Mas que peonada?

Uma bateção de martelo e ferro chama a atenção. Vem da Praça, acesso à Praia do Diabo e à Pedra do Arpoador, onde não dá mais para ignorar a montagem de uma megaestrutura para um evento qualquer. A maior que já vi por aqui.

Lá se foi a beleza natural do Arpoador, o cartão postal,  nesse final de semana.

Engraçado…

Fica uma impressão de dévà vu. Aquela de já ter visto esse filme antes, só que numa outra praia.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Arpoador”, do SEM   FIM…  delcueto.wordpress.com

E3- ILUSTRADO - SABADO 30-05-2015

Edição Enock Cavalcanti

Diagramação Nei Ferraz Melo 

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