Rato rói, ignorância dói

Pela fresta de noite que lhe cabia espiava a escuridão esperando a lua quase minguante surgir. Precisava tomar uma decisão pra ontem. Voltar ao mundo que aprisionava seus sonhos e tolhia sua imaginação. Renunciar a solidão libertadora, fechar as portas do seu incomensurável interior e invadir a vida (ir)real.

Só uma coisa a faria se abandonar: a  amizade. Era ela que exigia o sacrifício de encarar o mundão lá de fora. Não podia deixar a própria sorte o parceiro. Ele a mantivera conectada no período em que estivera  recolhida do outro lado do túnel. Agora, era Pluct  Plac que precisava dela! Não houve um apelo direto. Mas, no último encontro, a confusão do alienígena “preso” na atmosfera terrestre por sua incapacidade de transpor o magnetismo provocado pelos danos na nossa camada de ozônio, se tornara latente. Não era mais uma questão simples, como a absorção por osmose dos efeitos gerados pelo excesso literário de Stanislaw Ponte Preta, seja pela música – caso do Samba do Crioulo Doido, ou pelas  crônicas – via FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assola o País.

Era mais e demais para o pobre extraterrestre que  coletava informações para repassar a seus superiores intergalácticos e justificar sua permanência no hospício terrestre, além reunir boas razões que fizessem sua cronista preferida voltar ao mundo real para acompanha-lo em suas prospecções.

Ele havia dado um tóin e, sem nenhum tipo de proteção exigida pelo código de viagens intraplanetárias, como vacinas  contra Leptospirose, a Peste Bubônica (ou Negra), o Tifo Murinho,  a Febre da Mordida do Rato, Hantavirose, Sarnas e Alergias, havia se materializado na dita Casa do Povo brasileiro, no Planalto Central.

É verdade que fizera o possível para evitar problemas. Adiara o dia do pulo explorador para evitar as anunciadas manifestações da onda vermelha, que – dizia-se – ocuparia os jardins suspensos da Babilônia do poder e não passou de uma “marolulinha” de abril.

Na ocasião, para não perder o impulso inicial e, quem sabe, aproveitar-se da instabilidade atmosférica para ultrapassar seu gap impulsional libertador, dera meia-volta, volver, gastando uma pitada a mais do seu pó de pirlimpimpim (apelido dado pela cronista ensandecida ao injetor de impulsos dos seus tóins), para “bizoiar” o fogaréu que ardia no maior porto do Patropi consumindo todo o material de combate a incêndios do estado mais desenvolvido do país. Chegara até a pensar oferecer seus conhecimentos intrínsecos de observador do Big Bang para ajudar a controlar as labaredas, o que se tornou desnecessário diante da chegada de especialistas estrangeiros. Isso permitiu que ele seguisse viagem para acompanhar a palpitante lição de como torrar dinheiro público.

Pensava em apresentar suas credenciais diplomáticas de parlamentar interplanetário para acompanhar oficialmente os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito instituída para apurar a surrupiada federal que provocou a derrapada da maior empresa do país. Não houve tempo! Mal adentrou o recinto pipocou uma tremenda confusão. Até pensou que era com ele.

Além dos animais habituais, pequemos roedores inadvertidamente viraram alvos de pisoteamento por assustadores artefatos assassinos, sapatos “de matar barata em quina de parede” que não deram conta do recado. Perseguidos implacavelmente, enquanto se ouvia, captados pelos sensíveis microfones do local, apelos solidários que pediam: “prendam, mas não matem os ratos”! Diante da confusão, muito ofendidos, resolveram se render. Afinal, ratos eles não eram! Hamsters e Esquilos da Mongólia, sim. Mas ratos? Esses permaneceram no recinto conforme informavam aos gritos, quebrando combalido o decoro parlamentar, representantes histéricos do po(l)vo.

Meio totalmente confuso em seu relato, Pluct Plact fez  a cronista tomar a difícil decisão de deixar seu retiro e, amanhã, fazer segurança para o desorientado explorador interplanetário em seu giro pelos protestos. Segundo ele, liderados por um João que pede “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”! Nada o convenceu que Joãozinho, o Trinta, era um carnavalesco e o tema apenas um enredo genial…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Fábulas Fabulosas”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

E3- ILUSTRADO - SABADO 11-04-2015

Edição Enock Cavalcanti

Diagramação Nei Ferraz Melo 

  GRAVATA 

Adiara o dia para evitar a onda vermelha que ocuparia os jardins suspensos da Babilônia. Não passou de uma “marolulinha”

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