É pra quem pode

É pra quem pode!

Texto, ensaio de fotos e vídeos de Valéria del Cueto para carnevalerio.com

“Eu sou Mangueira. Eu sou Mangueira sim. Eu sou Mangueira e meu amor nunca tem fim!” Assim bradam em alto e bom som, declarando seu amor pela verde e rosa, os integrantes da “Primeira Ala” e coração da tradicional escola de samba carioca. A bateria calou seus instrumentos. Seus componentes batem ritmicamente com os pés no asfalto quente da Marques de Sapucaí. Eles estão diante do Setor 1, a caminho das arquibancadas lotadas pelas torcidas que desfraldam bandeiras e estandartes e vão ao delírio com o grito uníssono e poderoso da rapaziada.

Até ali, resisti e tentei manter a imparcialidade necessária para realizar minhas tarefas na noite encalorada de ensaios técnicos. Primeiro, um registro da Mocidade Independente de Padre Miguel. Depois, desempenhar mais uma etapa da missão Carnaval 2015. Acompanhar a primeira entrada na Marques de Sapucaí, o templo do samba carioca, da Bateria da Mangueira sob o comando de seus jovens mestres: Vitor Art e Rodrigo Explosão. Junto com sua diretoria composta por Nielson Rei do Tamborim, Alex Explosão, Alexandre Marron, Reinaldo Nenem, Jaguara Filho, Maurício Macalé, Taranta Neto e Biraney, eles dirigem pela primeira vez o importante segmento mangueirense. São conhecidos como “Os Meninos da Mangueira”.

Estou com eles desde que assumiram o comando da bateria e, posso dizer, todos os nossos encontros foram pra lá de prazeirosos. A cada etapa do trabalho de registro que estamos fazendo juntos novas descobertas, emoção e ângulos inusitados a explorar.

Era a estreia deles e a minha também. Há uns anos atrás tive o prazer de fotografar dentro da bateria da Vila Isabel, no desfile das Campeãs. “Ô mulher compadre chegou! Pega o banco e vem prosear. Bota água no feijão…” O clima era de alegria e descontração na comemoração do título conquistado. Também tirei uma casquinha com Mestre Aílton na verde e rosa, mas só no esquenta. Agora, a “vibe” era outra…

Desde cedo acompanhei a montagem do grid dos instrumentos, os ritmistas chegando a concentração. Foi lá que os meninos se reuniram depois de organizar a Primeira Ala. Uma conversa final, mãos apertadas durante a oração do Pai Nosso e abraços, muitos abraços apertados de boa sorte.

Por opção do Mestre Vitor Art da concentração, do lado do Balança Mas não Cai,  emburacaram direto pela armação. Só pararam, silenciando os instrumentos,  para fazer sua declaração de amor diante do setor 1. E ele veio abaixo enquanto a bateria entrava na área do desfile e seguia em frente, apresentada por Evelyn, a rainha de bateria, até as torcidas organizadas para avisar: “Chegou, ooô, a Mangueira chegooou”, deixando claras as mais sinceras intenções dos Meninos da Mangueira: “Vamos fazer um carnaval legal, sambar é nossa tradição, cuidado que a Mangueira vem aí. É bom se segurar, que a poeira vai subir!” De lá, deram meia volta e entraram no primeiro recuo. O desafio inicial havia sido superado. Faltava o prato principal…

Quando comecei a editar as fotos, deu pra notar a tensão e a seriedade dos primeiros minutos da apresentação sendo substituídas pela sensação de conquista, a afirmação e, finalmente, a explosão de alegria, na dispersão, ao som do samba que canta o enredo “Mulher de Mangueira, Mulher Brasileira em Primeiro Lugar”, do carnavalesco Cid Carvalho.

Juntos, os Meninos da Mangueira, sonharam, cresceram, aprenderam, planejaram e chegam a Apoteose levados pela música e pelo entrosamento que só a amizade e o entendimento podem alcançar. Vitor Art é o mais novo Mestre de Bateria do Grupo Especial. Junto com Rodrigo Explosão e outros 250 ritmistas eles vão ter muitas histórias. Elas serão contadas para os próximos meninos que virão. Afinal, é tradição na verde e rosa: só quem é da comunidade tem autoridade para conduzir a Primeira Ala, aquela que todo mundo tem que respeitar!

Graças a eles, voltei ao tempo da esperança. Cheia de orgulho, me senti, também, uma menina. Da Mangueira…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “É carnaval”, do SEM   FIM… delcueto.wordpress.com

GRAVATA 

A tensão e a seriedade dos primeiros minutos da apresentação substituídas pela sensação de conquista, a afirmação e, finalmente, a explosão de alegria

 

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