É duro

Urca 140111 057 Vermelha Pedra pescador

Texto e foto de Valéria del Cueto

É duro ter que recorrer aos mais poderosos artifícios para poder gerar a crônica nossa de todas as semanas.

É duro pensar, raciocinar, exercitar a mente e não conseguir imaginar uma mensagem otimista que faça valer a pena esse esforço semanal de disseminar ideias e conceitos pelos escritos espalhados onde opiniões são bem vindas.

É duro procurar avidamente entre os acontecimentos que viraram notícia, ou não, algo que contraponha a pilha de mazelas que nos bombardeiam incessantemente.

É duro – e necessário – reconhecer que se não fosse o refúgio da Ponta do Leme provavelmente você, leitor, não estaria correndo  seus olhos por essas não tão bem traçadas linhas.

É duro dizer quem para garantir nosso prazer (o meu de escrever e o seu de ler) foi necessário colocar em risco a saúde da escriba, exposta aos piores raios solares do planeta, para garantir a produção literária semanal.

Era isso ou não ter texto. O horário do dead line se aproximava e… nada!

São meio dia e quarenta e cinco de uma sexta-feira e eis-me aqui, como já disse, na Ponta do Leme. Sorte que corre uma brisa leve ameniza um pouco minha febre literária. É verão e, como tal, o dia se apresenta. Não chove há semanas e o calor bate os quarenta graus, o que potencializa os raios ultravioletas.

É duro começar tentando poetar ao som do mar da praia do Leme e, deixando a mente divagar, pensar só no calor dessa praia paradisíaca e seus malefícios solares.

Respiro fundo escutando o canto do vendedor oferecendo mate com limão. Quero parar e me deliciar, mas não posso. Tenho pressa.

É duro ter vontade de mandar essa crônica às favas e dar um mergulho nessa água transparente verde esmerada que convida a uma nadada margeando a praia, ou um passeio de prancha. O mar está um espelho, sem chance para os surfistas. A pressa é tanta que nem sei se a água está gelada como nos últimos dias.

A questão é respondida por um banhista que passa voltando do mar. Não posso descrevê-lo, por que nem levantei a cabeça. “Pô, a água está geladona”, avisa em direção a barraca para onde retorna.

É duro ter a impressão que tudo que poderia melhorar o estado de espírito geral desse registro tem um “porém”.

E olha que jurei não abordar temas como o aumento das passagens de ônibus no Rio de Janeiro e a qualidade do sistema de transporte público, a quebradeira no centro do Rio num protesto contra o ato do prefeito Eduardo Paes e suas tristes consequências, os preços exorbitantes na cidade e a reação dos cariocas com o Rio $urreal e a desdobramentos como a página “Cansei de der mal atendido”.

E os apagões? Resisti bravamente a polêmica do ladrão preso ao poste pelo pescoço com um cadeado de bicicleta, por “civis” no bairro do Flamengo.

Quase sucumbi ao destaque dado à bronca da presidente capturada pelos vidros das janelas do Planalto (penso cá com meus botões que se ela gritasse mais, cobrasse mais e reclamasse mais, talvez as coisas estivessem melhores…).

Capitulei com a notícia do russo que, em nome da poesia, assassinou a facadas quem defendia a prosa, numa discussão literária.

É duro querer ser positiva nesse clima em que até as pirâmides emitem raios para os céus. Por isso, me despeço com uma única certeza positiva: quando o sol baixar, lá pelas cinco, estarei aqui novamente. De volta ao paraíso…

Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “No rumo”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

ILUSTRADO TER A A S BADO     NOVEMBRO  2009

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