Party in the air

KML 1301006 003 Comissária

Texto e foto de Valéria del Cueto

As portas da aeronave se abriram para acolher os passageiros do enorme avião. Seu semblante sorridente recebia os viajantes desejando a todos uma boa viagem.

Esta situação se repetiu durante milhares de voos pela mesma companhia aérea nos últimos 41 anos.

Uma rotina que a levara a conhecer o mundo inteiro. Ali, passara por situações inusitadas, algumas inclusive perigosas que se misturavam num looongo filme.

Num longo filme, não, numa saga que passava por  rotas diversas, em diferentes países.

Lidara com todos os tipos de pessoas, com costumes variados, línguas distintas, motivações algumas vezes indescritíveis.

Alguns passavam pelas aeronaves da companhia felizes por poderem sair de férias, preocupados com os negócios, alquebrados por alguma ausência…

Perdera a conta de quantas vezes reconhecera, por exemplo, aquele olhar medroso de quem entrava pela primeira vez num avião, sem saber os procedimentos de bordo, a quem ajudou a colocar corretamente o cinto de segurança, a ajustar a poltrona para decolagem ou como escolher o menu das refeições.

Isso falando apenas do que era essencial e necessário para se sentir bem durante, por exemplo, a travessia de um oceano.

Com os anos de trabalho ascendera de comissária da classe econômica para um posto mais nobre. Agora atendia a business class.

Fora uma vida de dedicação que lhe rendera momentos que gostaria de esquecer, como as turbulências da viagem, os que abusavam da bebida, potencializadas pela altitude, e outras situações limites.

Quantas histórias! Agora, apenas para serem contadas, por que a dela terminava ali. Seria seu último voo pela KML, a empresa a qual fora fiel por toda uma vida.

A escala da comissária definira que seu último trecho aéreo seria num voo Rio de Janeiro/ Amsterdam…

O anúncio de sua despedida foi feito pelos alto-falantes do avião, logo no início da jornada.

Tudo correu normalmente, até a hora de ser servido, já no último trecho do trajeto, o café da manhã continental.

Logo depois, a rotina se alterou. Os comissários passaram pelos corredores, explicando mais uma vez, que haveria uma homenagem à antiga funcionária e pedindo aos passageiros que a saudassem a sua passagem pelos corredores de todas as classes do avião. Ao mesmo tempo distribuíam balões e uma espécie de serpentina holandesa para quem quisesse saudá-la. Alguns aceitaram, outros se recusaram a fazer parte da festa.

Vale registrar que a maioria dos passageiros era de estrangeiros e, certamente, nórdicos.

Eis que surge um alegre cortejo de comissários pedindo passagem para a colega. Um trazia um rádio para animar a parada. E lá vinha ela, sentada em cima de um dos carrinhos de serviço, dando adeus a uma vida de dedicação e serviço.

Os aplausos foram muitos durante o percurso, numa cena que as centenas de passageiros dificilmente assistirão novamente. Imagine como seria essa despedida se fosse num avião repleto de brasileiros?

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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