Pluct, Plact, POW!

UPP 130928 027 PM na quina da Ribeiro da CostaTexto e foto de Valéria del Cueto

E não é que o Tum, do Pluct, Plact ainda não conseguiu dar seu Zum? Bem que tentou. Carregou as baterias, esquentou os motores, mas a tal da gravidade poluente alterada interferiu de novo impedindo sua passagem para outras plagas do sistema solar, a caminho de outras galáxias.

Subiu, bateu e voltou. Pra outro lugar, no mesmo planeta Terra.

Lindo lugar, diga-se de passagem. Cheio de construções antigas, misturadas a um emoldurado (de  certo mau gosto, registre-se) de prédios modernos, espelhados e pretensiosos. Mas o que ele viu um pouco antes de cair desajeitadamente compensava esses exageros tão humanos. Que deslumbramento, que contorno! Quanta sensualidade explícita inclusive na paisagem geográfica.

Precisava não se esquecer de dar um pulo direcionado mais tarde. Tinha que checar o que pensava ser um sinal dos deuses. Uma marca desgastada, como uma tatuagem em relevo mitológica em forma de Íbis, encrustada numa montanha a beira de uma enseada paradisíaca. Se aquilo fosse realmente o que ele pensava que era… Seria um dos sinais da benção divina deixada por antigos viajantes celestes?

Precisava averiguar, mas isso mais tarde. Por que agora o mais urgente era decifrar os sinais que recebia a sua volta.

Estava num enorme espaço vazio. Entre uma escadaria de um prédio antigo imponente e muitos homens de costas para ele. Uniformizados. Protegidos. Com capacetes e armas, registrou. Seus escudos formavam uma barreira compacta que impedia que ele conseguisse ver direito o que havia do outro lado.

Sua atenção foi desviada para o humano do grupo que passou correndo, vindo detrás das grades que formavam uma barreira entre a vida e o edifício.

Chegou perto um de contingente de iguais, se perfilou fazendo um cumprimento e disse alguma coisa. Todos se agitaram e o grupo se desmanchou.

Ouvia vozes, cantos, gritos do outro lado da barreira uniformizada. De tudo, conseguiu entender as palavras educação e professores. Também entendeu cabral e paz. Não tinha muito nexo falarem de “paz” com aquela agressividade toda. Certamente não era a verdadeira paz que se referiam.

Não podia ser mesmo constatou ao ver os primeiros movimentos dos fardados em direção a massa humana. Quando ouviu os primeiros estampidos olhou em volta procurando abrigo. Não havia pra onde correr. Do outro lado começaram a jogar artefatos. Alguns eram devolvidos após serem atirados pelos homens fardados. Um caiu ao seu lado. Os sensores começaram a registrar alterações enlouquecidas. Aquilo estava afetando seu sistema central.

Mas isso era apenas um detalhe que passava desapercebidamente na confusão geral que se instalava no entorno. A barreira havia partido para cima da multidão. E batia. Indiscriminadamente. Usando seu aparato de forma eficiente contra quem passasse pela frente. Homem ou mulher. Velhos e jovens.

Um dos homens chegou perto dele e fez uma pergunta. Com o barulho ensurdecedor de bombas e a gritaria, não entendeu o que dizia. Outros se juntaram ao primeiro, mas esses não conversaram. Partiram para o ataque, tentando imobiliza-lo de forma violenta. Levou chutes e pontapés. No chão sem enxergar nem respirar, por causa do gás, ouviu apenas uma voz que dizia: “Mais um black bloc fêdape. Está com o rosto escondido. Recolhe.” Preferiu fazer TUM enquanto dava. No meio da balbúrdia, ninguém se deu conta do sumiço de mais um manifestante. Melhor procurar os sinais divinos. Os humanos já estavam decifrados. Prenunciam o caos.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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