Falsa fingida

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Ela era assim. O que todo mundo esperava dela. Cordata, vaselina, sinuosa. Manipuladora.

A vida retribuía sua estratégia dando-lhe o que dela desejava e recompensando sua postura “aguerrida”.

Seu sonho era ser celebridade. Mas não durou. Virou  funcionária pública. Afinal, puxar o saco era uma arte que rendia excelentes dividendos e muitos degraus na carreira politicamente arranjada, através de seus afagos aos egos alheios.

Não tinha desafetos. Apenas alguns iluminados re-conheciam as regras que ela usava para navegar no mar de seu cotidiano de relacionamentos convenientes, preferiam ficar a distância evitando um contato mais direto. Afinal aquele estilo de vida poderia ser contagioso.

Para sua sorte, eram poucos os que sabiam identificar a máscara tão cuidadosamente encaixada.

O texto era básico e começava sempre igual. “Querida, que saudades, há quanto tempo. Lindo esse seu brinquinho…” assim começava qualquer encontro com ela. Primeiro uma manifestação efusiva. Não que importasse tanto a  pessoa envolta pelo abraço de ursa, mas sim, o efeito que esta manifestação causava no entorno. Feita em alto e bom som, quem deixaria de anotar sua deliciosa presença?

O motivo de tamanha afetividade não se sentia apenas um objeto de contra-regragem do cenário porque a sequência, essa sim, era toda dedicada a derreter o coração mais empedrado. Afinal, ela notava algum detalhe da amiga querida e deixava essa atenção bem clara: um brinco, uma roupa, o corte de cabelo…

O essencial era elogiar para mostrar que sim, ela, a falsa fingida, havia avaliado e avalizado o status quo do objeto em tela, quer dizer, de cena.

Seu palco estava montado. Agora, era só segurar a plateia. A princípio, nada de assuntos polêmicos. Melhor citar uma comprinha, falar de um produto que encontrou. Isso, se no decorrer da prosa, não aparecesse uma doencinha qualquer.

Aí, bastava lançar a rede. Falar dos últimos avanços da medicina ou de um remedinho que “disseram fazer milagres”. Aquele que trazido dos EUA e encomendado para uma superamiga que não tem mais o que fazer em Miami, do que cumprir a tabela das encomendas rapidinhas. “Se você quiser experimentar, peço pra trazerem dois, em vez de um frasco”. E que se dane a mala da portadora da encomenda…

A falsa fingida não perde a chance de “ajudar” os outros. A princípio sempre disponível, porém, quando necessária e solicitada… “Pena que justo agora não é possível, meu amor”.

Falsas fingidas são fúteis, mas bem informadas. Ricas ou pobres. Cultas ou ignorantes. Se assim não fosse, qual o estopo para sua eterna postura “in”?

Bom, isso até você conseguir sair do abraço,  respirar fundo, após ouvir o texto completo do Ato Número Um e virar as costas. Aí, a falsa vira fingida, a fingida parte pra falsidade. O pau come e a língua castiga. Começa a segunda parte do espetáculo.

Sabe você, a querida? Se o brinco era lindo, para a próxima abraçada vira demodê. A roupa, que era legal, não esconde aqueles quilinhos adquiridos na  última viagem de férias que, aliás, deixou a pele toooda manchada, coitadinha. Pensando bem, o corte do cabelo pode estar ótimo, mas que ele ainda está ressecado pelo sol da praia, ah, isso está…

Tá bom. Reconheço. Ser falsa fingida em alguns momentos até seria permitido, se não virasse vício. E dos mais recorrentes na nossa “sociedade muderna”.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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