A arte de não fazer nada

Araras 130531 017 rede

Texto e foto de Valéria del Cueto

Já experimentou? É muito difícil.

Quem lançou o desafio foi o Chico. Não o Papa, que Deus o tenha em sua santidade e que as orações por ele pedidas durante seu tour brasileiro sejam atendidas! Falo de Chico  Amorim, “fio” de seo Adriano e dona Adelina, da Comandante Costa, na Cruz Preta, em Cuiabá, Mato Grosso.

Ele dizia que não havia nada mais supremo do que não fazer nada. Por isso, chegar a esse nirvana era tão complicado.

Vi Chico nesse estado algumas vezes, a maioria delas balançando preguiçosamente numa rede. Olhos perdidos no vazio do universo, a ponta dos pés no chinelo velho garantindo o ritmo certo do vai e vem de seus pensamentos no nada.

Tenta. O problema começa quando a gente se instala para não fazer nada. Isso já demanda uma série de atividades que nos afastam do objetivo principal.

Porque o fazer é uma cadeia de elos de não fazer que, quando vamos ver, já é alguma coisa sendo feita.

Um exemplo: queria falar da arte do não fazer nada. Lembrei de Chico. Me dei um coringa: não fazer nada escrevendo, o que já é fazer alguma coisa.

Pensei no clima que atrairia Chico para o meu lado. Precisei fazer algo: achar um CD que Chico gostaria de ouvir. Pronto, lá fui fazer algumas coisas: abrir o armário, vaguear entre as várias possibilidades, até encontrar Dona Edite do Prato, produzida por Maria Bethânia.

Quase parei num CD de música cuiabana, como as deliciosas composições de Vera e Zuleica, mas achei que seria muito óbvio.

Chico sempre foi requintado, antenado. E, se fosse por referências imediatas, minhas primeiras opções seriam Nina Hagen, Laurie  Anderson ou Lou Reed. Quantas vezes subimos paras cachoeiras da Chapada ouvindo esses repertórios. Preferi algo mais nosso. Dona Edite era o contrapondo do minimalismo! Chico adoraria.

Mas vejam como me distanciei da proposta inicial. Já estava cheia de atividades. Físicas e mentais. E nada de não fazer nada.

É claro que o telefone tocou e precisei atender. Mudei o rumo da demanda, dando umas dicas do que fazer na noite carioca pra um cuiabano de passagem.

Para a gente conseguir não fazer nada, tem que seguir o fio da vontade, por que tudo acontece justamente quando a decisão de tirar os véus e alcançar o vácuo é tomada.

Tudo atrai como um imã, tudo acontece e você tem que ir de desnudando de todas as vontades, optando por algo que não leva a absolutamente… nada!

Já passei dias tentando não fazer nada. Procurando resistir as tentações de fazer alguma coisa. Algumas, desisti, porque não é fácil ver o mundo passando lá fora enquanto você se aquieta.

Tá, você vai dizer que isso é meditação. Monges, budistas, hindus e muitos outros fazem isso com os pés nas costas. Mas não é, por que na meditação, você… medita! Se eleva…

O fazer nada cuiabano proposto por Chico Amorim é mais largado, menos rígido. É balangado. Pra quem consegue alcançar esse não ritmo, esse levar.

Acho que tem muita gente precisando não fazer nada. Por que assim, pelo menos, estariam deixando de fazer demais, sem nenhum critério, sem agregar valor a quantidade de inutilidades geradas no mundo…

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Parador Cuyabano”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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