Quem vai querer?

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Somos uma ilha cercada de peregrinos na nossa única saída. O resto vocês já sabem: morro, pedra e mar.

Estamos abençoados por tabela e ricochete. Não precisa nem chegar no palco Rock in Rio de Francisco.

Ele nem deve ter notado os “patrocinadores” pendurados em seu cangote. Nextel na concepção “solideridade” do VT exaustivamente exibido e Rock in Rio na Cidade da Fé e outras alusões conceituais. Os de sempre, né, gente? Devem ter sido chamados a colaborar, mas como o Vaticano já tem seus próprios e apropriados apoiadores, tipo  Allitália e Fiat – italianos como o Vaticano  original – tiveram que se desdobrar pra pegar uma beira no merchandising de Francisco.

Um destaque especial para a Coca-Cola que colou seus adesivos nos isopores de água e refri. Por que cerveja, nem pensar! (evento no Rio sem cerveja?)

E foi pensando nesses detalhes que resolvi desenvolver a crônica de adieu a Francisco. O cara, sem dúvida, é gente boa. Além da benção e do perdão dos pecados conseguiu o milagre de apagar as propagandas explícitas invasivas e de mau gosto que pululam nos eventos na Cidade Maravilhosa. Provou que dá pra fazer a festa sem escancarar e empurrar goela abaixo a poluição visual que descaracteriza o Rio a cada nova atração.

No quesito decoração é assim que o Rio deveria ser se não fossem os vendilhões de cabeça curta e bolso largo. Os que não se dão conta que ao encher o Rio de penduricalhos cada vez mais acintosos e invasivos, só depõem contra nossa beleza natural, desvalorizam nosso corpinho.

Mal comparando, é a nobreza aristocrática de Paris (já viu banner na Torre Eiffel? Propaganda no Arco do Triunfo?) perto da Garota de Ipanema, transformada em quenga de quinta carioca. Aquela que se depender de seus gestores, abre as pernas e empresta seu corpo pra qualquer um que aparece com um troquinho. Não para a cidade, mas para os amigos.

Pois esse é um dos legados de Francisco que tantas coisas nos ensinou e com tanto carinho nos tratou: a prova de que é possível, sim, realizar festa sem vender nosso patrimônio visual, sem poluir a cidade com tanta propaganda invasora.

Quanto mais limpo melhor e mais caro. Aproveitamos para botar os publicitários de plantão para exercerem seu papel que é criar, inventar alternativas mais atraentes e menos poluentes.

Foi quando vi a caixa de isopor padrão que escolhi qual seria meu olhar (míope) quando saísse pra fazer fotos: procuraria o Rio entre os ambulantes.

Afinal, é possível sentir o pulsar da cidade por suas ofertas. Isso não é novidade. Debret já retratava os ambulantes em 1800 e lá vai pedrinha.

As condições do tempo e temperatura impuseram os hits da temporada: guarda-chuva e capa. As cangas, especialmente as da bandeira do Brasil, viraram proteção para o frio. Acho que se estivesse fazendo um calorzinho a tendência teria sido mais, digamos, liberal. Não que as moças usassem biquínis, mas um topzinho básico ia rolar. Depois, confessionário! Um item bem avaliado foram os banquinhos de quinze reais, pra quem não quisesse sentar na areia úmida.

A essa altura eu já estava preocupada. Onde andavam os produtos tipicamente cariocas? (A estampa da sombrinha/cartão postal não conta). Rodei bastante até achar um vendedor de Biscoito Globo. Quanto ao Mate Leão, tão genuíno… Lamento informar. Procurei muito. Mas mate por aqui, só a erva (mate) do chimarrão oferecido por um peregrino a  Francisco, o Papa argentino mais brasileiro do mundo.

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*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

 

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