Vento que venta lá venta cá

Ponta 130611 023 barcos e ilhaTexto e foto de Valéria del Cueto

No início da semana passada me perguntaram o que eu queria fazer no dia do meu aniversário. Não seria um grande dia analisei diante das imensas saudades que, sabia, iria sentir. Da diferença de acordar e não poder me atirar nos abraços de quem me amou incondicionalmente. E que, durante toda a minha vida, jogou em várias posições sabendo ser polivalente, ocupando todos os espaços do campo o tempo todo da partida. Como Claudio Coutinho, técnico da seleção de 82, pregou. Avó, madrinha e amiga. Minha. Sem ela seria o que, como e por quê? Como aplacar a sensação de um tiro de 12 no peito?

Assim pensava eu, pensas tu, pensariam eles. Se o mundo não fosse surpreendente. E tudo – eu disse tudo – não pudesse mudar com uma batida de asa de borboleta de vinte centavos.

Não entendo a surpresa com os últimos acontecimentos. Era uma questão de química aplicada. Os componentes estavam ali. Expostos, públicos, nus. Crus. Parecia que o lombo do povo era insensível as lambadas que faz tempo estão esvaziando seu bolso, castigando o corpo, dilacerando sua dignidade.

Um homem pode ser bobo, alguns podem ser enrolados, mas um país inteiro, até quando? Ou será quanto?

Não é possível que não houvesse uma leitura que apontasse a hipótese que as mesmas ferramentas usadas para tentar manobrar a opinião pública, poderiam ser usadas em sentido contrário.

É muita soberba! E ela levou os governantes a esse estado de perplexidade patética diante da força da voz das ruas.

Claro que agora todo mundo quer puxar a brasa para  sua sardinha e um monte de pretendentes começa a aparecer querendo pedir a mão da noiva. Afinal, o dote é grande e por mais que a moça seja xucra,  rebelde, o desafio de conquista-la é irresistível. Difícil vai ser convencê-la…

Vou dar um palpite sobre esse presente de aniversário tão inesperado que acabei ganhando. Afinal, como comemorar em petit comité se logo ali um país inteiro se mobilizava? Considerei que não poderia ganhar presente melhor. Eu e as centenas de milhares de pessoas que expunham seus anseios e sim, sua revolta.

Primeiro: não é por 20 centavos! Segundo: essa massa multifacetada vai se encontrar. E, por meio de núcleos independentes, ligados por interesses comuns se (re)organizar assumindo o papel de antigas entidades, totalmente esvaziadas por que subservientes e escravas do status quo adquiridos quando deixaram se representar seus interesses afins  e passaram a atender aos companheiros.

Se não essas entidades e outras instituições, surgirão grupos que preencham as lacunas deixadas. Tudo isso usando os recursos que, agora os senhores do poder sabem, podem ser letais das redes sociais. Não duvidem. Será apenas o começo.

Para as gerações que estiveram nas Diretas Já e no sacode do Fora Collor há uma árdua missão. Mostrar que talvez essa história pudesse ser outra. “O preço da liberdade é a eterna vigilância”, disse Thomas Jefferson. Essa premissa básica esteve adormecida por tempo demais. E, já que começamos de novo, tomara que seja evitando os erros do passado.

Vida longa e constância aos ventos que sopram e acordam  o gigante Brasil em cada um de nós.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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