Upa neguinho na estrada!

Chapada-110903-005-EstradaTexto e foto de Valéria del Cueto

Está aberta a temporada do checkup, o que faz do querido e indispensável caderninho, onde escrevinho minhas crônicas, o campeão imbatível de audiência literária e cotidiana.

Ele é a melhor companhia enquanto aguardo a vez de ser atendida e evita que eu tente descobrir por que agora a clínica que frequento criou mais um balcão para que os pacientes atinjam o nirvana dos sofisticados aparelhos ultrassonográficos e afins.

Chama-se “pré-atendimento” informa a placa  e faz com que percamos mais tempo numa nova, emocionante e inútil fila. Segura, peoa!

Estou quieta. Mas não me deixam em paz. Acabo de ser informada que a Golden Cross não autorizou a realização dos exames solicitados pelo médico.

O motivo? É automático: faz menos de um ano que fiz a última volta olímpica nas clínicas e laboratórios. Eles querem saber por que adiantei em 2 meses meu último checkup.

Pensei em várias respostas, umas mais educadas, outras com alguma picardia… Mas, nenhuma tão boa quanto a da atendente da clínica que resumiu assim minha última pendenga:

– Alguém faz exames médicos por esporte? – pergunta.

O melhor foi a envesgadinha do olhar que acompanhou a observação da moça.

Falou e disse menina! Resumiu perfeitamente a ópera bufa dos clientes de planos de saúde no nosso Brasil varonil…

Ou seja: é ele, o plano, que decide quando você pode precisar usá-lo!

É claro que isso, mediante a módica quantia de quase um salário mínimo de mensalidade.

Alguém pode chamar a polícia pra fazer o seu papel? Botar em cana essas quadrilhas homologadas pelo governo federal?

Enquanto me informo sobre o procedimento, finalmente autorizado, a senhora do guichê ao lado me parabeniza, com os olhos cheios de inveja (boa):

– Parabéns, milha filha, sorte sua. Pelo mesmo motivo tive de adiar meus exames ano passado. Não consegui essa autorização – diz ela, com olhos cansados.

Ah, se fosse comigo! Quer dizer que se tiver que viajar no mês que o plano bondosamente decidiu que estou apta para fazer os exames e magnanimamente se dispõe a autorizá-los, ou, quem sabe, meu médico tenha conseguido um encaixe na sua lotadíssima agenda antes da temporada autorizada, perdi?

Sei não. Talvez seja melhor mandar os planos de saúde catar coquinhos e procurar uma UPA!

Tão lindas, tão vazias e eficientes! Tão cheias de recursos e de médicos e enfermeiras sorridentes nos reclames institucionais (pagos com nosso suado e vilipendiado  dinheiro) do governo…

Quem diz e mostra essas ilhas de tranquilidade e bom atendimento é a propaganda oficial, disseminada e massificada nos horários nobres das TVs, rádios, jornais e redes sociais.

Bom, diante dessa última reflexão e suas inúmeras possibilidades, decidi pedir ao meu médico outras autorizações. Acho que preciso de novas avaliações, desta vez, numa especialidade inédita no meu prontuário medico/hospitalar.

Só um psiquiatra para   me ajudar a cair na realidade e deixar de aventar hipóteses e possibilidades mirabolantes que existem apenas nos contos da carochinha, nas propagandas enganosas e nos discursos de políticos sem vergonhas!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.wordpress.com

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