O que atravanca são “ozoutro”

Ponta 130314 034 Nilson Marques onda subindo

Texto e foto de Valéria del Cueto

A ressaca está braba! Como os prazos para as obras da Copa do Mundo implacável, inexorável.

Estou na ponta, olhando um único atleta solitário despencando pelas ondas que parecem nascer na Pedra do Leme e lamber o Caminho dos Pescadores, ainda não interditado, o que acontecerá – creio eu – logo mais, devido ao perigo do mar atingir a mureta.

Até lá, admiro a arte de Nilson Marques, que na sua prancha de bodyboard, dá um show solitário para os poucos fanáticos, como eu, que não podem ver um mar alto e já correm para a Ponta. Sei quem é o atleta solitário por que, entre os poucos assistentes dois são primos dele, moradores do Chapéu Mangueira.

O que o talento não faz com uma prancha, pés de pato e a enorme coragem para enfrentar as ondas? Um dos primos me diz cheio de orgulho que no morro tem um monte de bons atletas como Nilson. Respondo acrescentando que eles estão espalhados por diversas modalidades ligadas a nossa exuberante paisagem.

A sorte é que, já sabendo da previsão das ondas, havia levado minha câmera. Não tem tempo ruim ou má fase que perdure olhando a beleza plástica dos movimentos do bodyboarder. Eles nos encantam e surpreendem a cada manobra. Quando vejo, meu olhar está lá, no mesmo ponto que o dele, “escolhendo” as melhores ondas, as que merecem as remadas e pernadas que o levarão quase ao céu.  Fico ali, parada, pensando na vida, enquanto Nilson rema de volta para o pico, enfrentando de frente as ondas gigantes.

Cada um com seus desafios. Fui parar na ponta por que em casa não posso ficar com o a gritaria do motor do chupa lama do Eduardo Paes, que castiga meus ouvidos e acaba com a paciência e a saúde dos vizinhos, moradores do pé  da Ladeira Ari Barroso, quina com a Ribeiro da Costa, no Leme. As ondas do mau humor quase me derrubam e preciso  ser imparcial ao acompanhar as aventuras da preparação dos eventos mundiais no Rio e no Brasil, incluindo aí a Vila do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. É necessário um olhar complacente e otimista para lidar com o despreparo (pra ser boazinha) e o desrespeito vigente.

Perdi definitivamente a esportiva quando li que a Secopa fez uma reunião com os locatários dos imóveis que serão desapropriados: “O Consórcio Diefra/Cappe, responsável pela elaboração de laudo de avaliação e fundo de comércio para instruir os processos de desapropriações, listou os documentos que deverão ser entregues: contrato social da empresa; balancete dos últimos três anos; os documentos dos donos e sócios da empresa”. A melhor parte é o prazo de entrega da papelada: 25 de março (com dois finais de semana no meio). Não é piada. É desrespeito. Se fosse só com os locatários, já não estava bom. Essa é a atitude com os “atingidos”. É não é uma exclusividade cuiabana! É geral.

A realidade é que além de alta(s), a(s) conta(s) não ser(ão) devidamente “verificada(s)” e, com isso, nós, os trouxas de sempre, pagaremos a fatura do pato, levando gato por lebre.

O mais inacreditável é a cara de pau de quem nos diz – e já reconhece – que obras importantíssimas, ficarão prontas em cima do laço. Como cumprirão  requisitos básicos de segurança e engenharia? Alguém já viu um habite-se e os alvarás dos bombeiros e da vigilância sanitária  saírem em menos de dois meses?

É a força tarefa do mal (feito) dominando tudo!

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

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