Simples, pra mim


Areia 121220 159 pipa e trave

Simples, pra mim

Texto e foto de Valéria del Cueto

Estou com síndrome de pipa. Não das gordas, das que voam. Tudo que quero traduzir em imagem se resume a uma delas.

Se digo que quero voar, lá estão elas, bailando no meu céu. Serelepes e abusadas.

Quando falo em liberdade, penso na sabedoria maior que elas me ensinaram: a sempre dar linha. Nunca tencionar sem necessidade. É, por que se na linha, pipas dançam, na puxada, elas rebolam.

Desde que me conheço por gente sou fascinada por pipas, pandorgas, arraias (não possuem rabiola), papagaios, ou chame você como quiser as chinesinhas, usadas a dezenas de milhares de ano como sinalizadoras militares. Que ironia. Meu símbolo de liberdade…

Cresci ajudando e atrapalhando experts a alinhar as varetas, fazer a cola de goma, recortar os gomos e enfeites no papel de seda e as tiras da rabiola, preparar a linha e enrolar o carretel. Aqui, pulo o capítulo do cerol, por que não poderei atirar a primeira pedra contra quem já brincou de cortar as vizinhas no céu.

Como na vida, tem gente que solta pipa, outros, preferem empinar o papagaio.

Prefiro quando a vida me dá menos trabalho. Pode parecer coisa de gente preguiçosa, mas não é. É coisa de gente que sabe que mais vale um luar do que lutar. Até por que, ultimamente, lutas tendem a ser inglórias, o que é bem pior do que uma simples derrota.

Estou na levada da pandorga. Seguindo o vento, se deixando guiar pelos puxões e safanões caprichosos da molecada. De preferência pedindo muita linha, que é pra ter a sensação de espaço aberto. De poder saracotear.

Isso não quer dizer que perdi o rumo, larguei de mão meus objetivos. De jeito nenhum. Apenas sinto que o momento não é o ideal para determinadas abordagens. Até por que, pedir o impossível é somente um requisito para a frustração eminente, pela qual não pretendo passar.

E lá vem a pipa novamente. O que me falta agora é quem conduza minha linha. Sempre tão livre, mas segura na Ponta do meu Leme.

Daqui pro mundo era um pulo, o passo da confiança, o espaço da certeza plena de que, nesse fio, só passavam ordens e comandos gerados no mais profundo e incondicional amor eterno.

Agora, o fio está sem mando. A pipa não tem mais limites.

Mas tem objetivos. Se não imediatos e palpáveis, de conduta e caminho. Que é pra não desperdiçar o que aprendeu, nem deixar de saber que se o rumo é o prumo, a meta tem que ter valor e valer o preço da, agora, infinita solidão. O tempo é senhor.

A vida segue como um mar que se limita somente pelo nome que leva, já que suas águas, sem divisas, se confundem pelas correntes que cortam e se misturam oceano adentro.

Agora, só com a rabiola como ponto de equilíbrio, sem o fio que guia seus movimentos, o céu é infindável.

Muda o ritmo, os estímulos, muda o todo, tudo foi. Nada existe. Só vento, que carrega a pipa, quem sabe lá para onde? O qual será o por quê?

Só não dá pra admitir a hipótese de, ao perder a linha externa, esquecer que há algo mais, capaz de ser fio e ser luz que não quebra nem dilui.

*Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Essa crônica faz parte da série “Ponta do Leme”,  do SEM FIM… delcueto.cia@gmail.com

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