Assalto ao alto

Texto e foto de Valéria del Cueto

Depois de embarcar naquela, os percalços dessa. Na saída de Floripa foi sorte que não estar chovendo. Depois de desfilar pela pista do aeroporto só os privilegiados da porta da frente tiveram direito a cobertura na escada que leva à aeronave. Ao povo da porta de trás, das poltronas com numerações mais altas, restaria a chuva mesmo…

No alto da escadinha uma mocinha aponta a arma: um folheto com os simpáticos preços de qualquer coisa que você venha a consumir a bordo.

Nem passarinho, nem macaco, somos mais. Como nos tempos das barrinhas de cereal ou pacotinhos de amendoim. Animais não sabem usar o dinheiro, lembra?

Agora somos vítimas de um absurdo achaque. Uma aguinha custa R$4,00. Assim como um cafezinho, inho. Refri em lata é 6 “real”. Já o combo de sopa/água (argh) é de dez mas, se trocar por um refrigerante, pula pra 13. Os sandubas, que beleza, saem de R$14. Todos com carnes voadoras. Filé de frango ou peito de peru. Não come carne? Pague e tire. Os combos minis, líquido mais sandubinha, todos com presunto, custam de 10 pratas pra riba. Cerveja (oba, dizem) com 15 gramas de amendoim ficam por 7.

Não vai aguentar o voo sem pelo menos uma àgua?  Saque o cartão e reze para passar na maquininha. Moeda só a nossa. Essa é a (in)grata realidade. ÁGUA DEVERIA SER DE GRAÇA,  dona companhia. Chamem a ANAC!

A crueldade que fecha o embrulho pra presente com laçarotes de fitas de seda é o energético de 10 pilas. Aquele plus pra quem se encontra no interior de uma aeronave a alguns mil pés de altura. Pode pirar, pode surtar, pode agitar. O produto se chama I-N-S-A-N-O!

Assim como o atendente para quem havia solicitado um assento em que pudesse ir fotografando a costa e me colocou do lado oposto, onde meu horizonte é o Atlântico entre nuvens. Tudo poderia ter ficado assim, pelos ares. Já teria rendido uma crônica. E pronto.

Prontos ficamos nós passageiros que, no Santos Dumont, tivemos que ficar pacientemente esperando na pista –  no sol junto a aeronave – enquanto o ônibus embarcava a primeira tropa, levava os passageiros ao terminal de desembarque e voltava para buscar a segunda turma que se refugiou nas sombras das asas do avião. Isso, nunca tinha visto. Mas há sempre uma primeira vez.

E uma segunda ou muitas outras também, quando o assunto é mala danificada no voo. Não deu outra. Quando fui pegar a bagagem, o puxador estava quebrado e ela meio lanhada do lado. Cheia de experiência procurei o funcionário da companhia que fez o registro da quebra do puxador, mas disse que a detonação era do “manuseio no terminal”.

Ele me explicou que a mala seria arrumada, mas que “era praxe da companhia” que o passageiro levasse a mala até a loja, no centro do Rio de Janeiro. Não precisei demorar muito a convencê-lo a mandar buscar a mala na minha casa. Não foi o argumento lógico de que o custo do transporte de ida e vinda seria muito maior que o conserto da mala que o convenceu.

Quando perguntou se, então, eu poderia entregar a mala para ele ali, na hora, disse que poderia sim. Só precisava que ele tivesse paciência e esperasse  até que tivesse tempo de montar minha câmera ou chamasse uma televisão que se interessasse em registrar a cena “non sense” das roupas amontoadas no piso do terminal. Antes da publicação desse registro diz a lenda que a mala estará no abrigo do meu lar.

Entrei de gaita nessa viagem surreal, como disse na primeira parte dessas incríveis aventuras no bolicho voador!

Vale registrar: de tudo a venda na birosca só achei um produto desejável e aproveitável. Na contra capa, junto com dois livrinhos da Disney, na parte infantil, havia um aviãozinho de borracha para bebes por módicos seis reais. Na próxima vez, pela Web Jet, só nesse eu  quero voar. De preferência na banheira lá de casa…

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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