Pegando o bonde andando

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Já passou por essa situação? Emocionante, estressante e… sei lá. Peguei o bonde, sem saber muito bem pra onde. É vida nova, paisagem diferente, outras pessoas e perspectivas. Um sacode e tanto.

Quando meu rumo era o centro, vim parar nos sul. Troquei o oeste pelo leste. O cerrado pelo litoral, emoldurado pela serra do Mar, no lugar da sempre bem vinda e aguardada silhueta da Chapada dos Guimarães. O calor seco e inclemente foi substituído primeiro por um dia de sol na beira da praia. Agora, pelo vento frio e a chuva fina que anuncia a chegada de uma frente fria.

Morram de inveja, amigos mato-grossenses. Do centro geodésico que povoava meu primeiro sono do início da semana, vim bater na ilha paradisíaca que abriga a capital de Santa Catarina, Florianópolis.

Ah, se fosse só uma mudança de paisagem… Aí não seria coisa minha, daquelas que fazem a vida ter mais que graça, ser maravilhosa. A ponto de valer cada sacrifício feito numa vida inteira para não ter amarras. Poder sair para ir ali e acabar chegando lá, sem medo de ser feliz. Sem deixar pendências ou gente insatisfeita. Fui!

Quer dizer, vim!  Por que, mesmo sem conseguir regular as coordenadas do meu GPS interno, sei que estou bem na foto. Afinal, já palmilhei essas terras em outras produções. Tudo é apenas uma questão de apertar a tecla F5 e atualizar a página do Google Map. “Muderno”, né?

É engraçado como as lembranças de verões maravilhosos, amizades da vida inteira e aventuras ainda inenarráveis, pelo simples fato que suas narrativas podem comprometer pessoas ainda vivas, ativas e atuantes, voltam com uma rapidez incrível.

Isso, antes mesmo de sair do aeroporto da ilha em direção à nova base. Quando o motorista pergunta qual o caminho que prefiro, a resposta sai assim, de pronto. Deixo o pantanal pra depois e peço que ele siga em direção a Ponte Hercílio Luz (como lembrei o nome?) e siga pela Beira Mar.

Me lembro de duas coisas do centro: a rodoviária, onde despachei um amor de verão para a Argentina em priscas eras e tantas vezes fui e vim de Bombinhas, Quatro Ilhas e adjacências ou fiz baldeação de lá para Garopaba e a Praia do Rosas. Quando a conheci, era novinha, recém-inaugurada. Agora, me conta o motorista, ela está pra lá de decadente. A segunda coisa era o grande Mercado Público Municipal, um conjunto antigo, construído pelos idos de 1898, que adorei percorrer explorando suas peculiaridades. Isso foi antes. Depois, já no novo milênio, uma parte pegou fogo, o que fez com que ele fosse revitalizado. Enfim, o que era novo e tinindo ficou velho e o que era antigo e decadente foi revigorado. Definitivamente faz tempo que não venho pra essas bandas, penso com o zíper do meu casaco, largado ao meu lado no banco do carro. A última vez que passei por aqui foi antes do incêndio fatídico.

Fala sério, está estranhando o teor desse texto, não é? Estranha não. A vida é assim. Num hora observações causticas, críticas inspiradas, pílulas de sabedoria política. Na outra, a constatação de que tudo é nada diante da chance (imperdível no meu caso) de começar tudo de novo! Que seria d’eu se não topasse essas reVIRAvoltas e fizesse delas assunto e mote das minhas crônicas semanais?

Certamente não a geminiana que vos escreve às pressas, numa madrugada chuvisquenta, na véspera da data limite para entregar minhas polidas palavras às mãos revisentas dos meus a-ma-dos editores, em vez de ir dormir e entregar pra Deus a minha ausência justificadíssima das páginas dominicais, impressas e internéticas, que publicam essas crônicas. A culpa é sua, caro leitor, que tanto amo. Para  desespero dos meus novos empregadores que amanhã terão uma simpática zumbi assombrando a equipe que será minha família pelos próximos meses. Depois conto mais!

*Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série “Parador Cuyabano” do SEM FIM. delcueto.cia@gmail.com

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