Laraia, ôoo

Mangueira

Texto e foto de Valéria del Cueto

Olhou em volta e viu. O tudo e o nada. Por uma questão de ambição escolheria o tudo. Mas, diante das circunstâncias, o nada era o conforto da alma exaurida.

Estava tão exausto que simplesmente não queria escolher. Que ficasse como estava, no limbo. A meio caminho entre o céu e o inferno. A respiração acelerada, o suor molhando o corpo inteiro. A dor ausente pela insensibilidade generalizada.

Só queira tomar um pouco d’água. Não lhe restava mais nenhum desejo, nenhuma vontade.

As cores se misturavam ao som num tumulto quase esotérico. Não dava para parar, por que atrás vinha gente, muita gente.

Tentava recolher o que restava de sua indumentária. Pedaços coloridos e disformes, que teimavam em seguir dançando, empurrados por corpos, tecidos e armações sacolejantes quando seu corpo pedia descanso. Prestes a serem engolidos por uma leva de outros adereços, de feitios e formas diferentes.

O êxtase durava pouco e, para ele, se trabalhava muito. Meses de produção ininterruptos, ás vezes mais ágeis, outras devagar quase parando. Indo em frente. Tudo por aquele momento que se estendia por horas de finalização e minutos de realização.

Depois o agora. Um tempo fora do tempo, em que tudo é nada e nada é tudo. Profundo e filosófico assim. Um vácuo repleto de sentimentos e sensações que dali a alguns minutos poderiam não perdurar, sequer ficarem nas memórias pessoal e coletiva que tão ansiosamente o aguardavam.

Isso é o mais tarde. Um pouco. Antes, aquele senão inexistente onde a vontade relaxa e não existe nenhum futuro por que o passado ainda está presente.

Agarrou  esse fio de teia de aranha como se ele pude suportar o peso de seu corpo, sua emoção, seu sonho talvez realizado. Pegou com força as mãos da cantoria, sacudiu sua alegria e saiu da inércia em direção as cores de sua paixão.

Que importava se a pista havia terminado, o tempo se esgotado e o som tivesse sido cortado? Sua voz era um instrumento tão poderoso quanto os surdos, tantans, repiques, agogôs, chocalhos e tamborins que insistiam em fazer dos seus barulhos a melodia musical que, como a flauta de Hamerlin, atraía os como ele.

Foi um choque. Percorreu seu tudo nada, tumultuou o falso silêncio do quase limbo que almejava com o ritmo circundante e chacoalhou a sede ao delinear com os lábios ressequidos um simples e singelo lalaraia.

No ôooo queria era mais. E espalhava sua festa pela dispersão apoteótica.

Não via nada, sentia tudo. Por que aquela sensação eletrizante dominava seus poucos sentidos. Precisaria de muitos outros para poder colher mais que a flor delicada da lembrança que queria preservar para sempre dentro de si.

E daí se era apenas carnaval? Se o tempo de alegria não seria eterno e sucumbiria diante das responsabilidades dos outros 362 dias que viriam a seguir?

Depois dali só haveria um caminho. Começar tudo de novo, sabendo que sempre valerá a pena a falta de ar, a dormência do corpo, o suor salgado da alegria incontida, o grito rouco lançado no ar capaz de se juntar a tantos outros no caminho da apoteose de um sonho.

Que pode ou não dar certo. Mas foi. E, por isso, mereceu cada lágrima por ele derramada, cada sorriso brotado da expectativa do fazer, a descoberta sempre surpreendente da forma no resumo inconteste do seu conteúdo, o carnaval. É o sentir, sempre será o sentir a seguir…

* Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Esta crônica faz parte da série e “Ponta do Leme”, do SEM FIM

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