P de paraíso, p de purgatório

P de paraíso, p de purgatório

Texto e foto* de Valeria del Cueto

Um paraíso me leva a outro. É isso mesmo. Assim que a Semana Santa passar, saio da quaresma e parto pra Bahia.O berço do Sem Fim…, o curta-metragem “História Sem Fim… do Rio Paraguai – o relatório”, resultante da expedição pelo Rio Paraguai, entre Cáceres e Corumbá tem essa característica. Leva-me do Pantanal para outros paraísos brasileiros. Desta vez, para o Arraial d´Ajuda Cine Fest. Mal e mal consegui começar a mostrar o que produzi com minhas câmeras em Uruguaiana e já parto pra outra captação. Este é o tipo de “captação” que estou apta e tenho vocação pra fazer. De imagens, sentimentos e costumes.

Toco nesse assunto por que, esta semana, participei de outra aventura, bem diferente da que descrevo aí acima. Por necessidade premente e urgente, tive que realizar uma missão burocrática na ANCINE, a Agência Nacional de Cinema, no centro do Rio de Janeiro.

Fui parar lá por total incapacidade técnica (e olha que sou fera na informática) de extrair das entranhas da rede um DARF pra pagar o CONDECINE, a taxa (!) que somos OBRIGADOS a pagar para que nossos filmes sejam exibidos nos meios de comunicação e afins.

Bom, pagar pra exibir curtas já é uma piada, já que o mundo sabe que curtas não são bens comerciais, não dão lucros pros loucos que os fazem. Mas… que seja, ou melhor seria. Do verbo não vai ser sem um pit stop ao órgão regulador da atividade.

É, por que não consegui sequer dar a partida no preenchimento internético da guia para o pagamento. Só para preenchê-la existe um passo a passo para ignorantes como eu de 12 (eu disse DOZE) páginas de um PDF. Isso, se você tiver sorte do seu telefonema para esclarecimentos ser atendido um gentil funcionário que faça o alerta: “Primeiro aprenda como preencher, por que se você começar e tiver dúvidas, o sistema fica inoperante pelo tempo parado e você tem que voltar para o início de novo”.

Tudo muito bom, tudo muito bem, não fosse o fato de que, justamente esta semana venceu o registro da minha humilde e diminuta empresa junto à Agência. Ou seja: a Ancine desconhecia solenemente minha necessidade básica…

Como estava por aqui, resolvi trocar a praia na Ponta do Leme pelos corredores da Ancine e visitar minha santa protetora no local  (Graças a Deus eu a tenho!). Bom, lá fui eu: ônibus, metrô, Cinelândia, Graça Aranha.

Na rua é impossível não descobrir rapidamente onde é o prédio da Ancine. A placa com a marca mor da burocracia do cinema brasileiro é enorme e, definitivamente, não orna com o prédio antigo de fachada e paredes de mármore. Por dúvida das vias, você não vai se perder, caso se intimide. Olhai pro céu, olhai pro chão. Nele, no tapete e/ou capacho, a logo se multiplica. Aliás, está replicada em vários materiais, tramas e metais. Impressiona.

Principalmente por que temos muito tempo de observá-las, enquanto somos inquiridos sobre nossas reais intenções no edifício, por uma não tão gentil recepcionista que, depois de  perguntar onde, quando e por que você quer falar com alguém, pede a identidade, tira sua fotografia e, finalmente, entrega o valioso crachá que permite seu acesso ao templo da sétima arte, aquela que você pensa produzir .

Uma roleta aqui, um elevador ali (com mais logos espalhadas) e chegamos ao nono andar. Ao corredor do nono andar. E dele, no passaras, caro cineasta. Seja pra regularizar sua empresa, seja pra provar que seu filme é brasileiro, seja pra conseguir o boleto pra tirar seu CONDECINE.

No meio do caminho você vai se sentir, como eu, uma ignorante por desconhecer o procedimento apropriado e correto para cada ação do “game”. É, mas não se preocupe, pois você não é o único. Nem eles se entendem. O que é exigência de uma parte, não pode ser dada pela outra sem que algum porém impeça seu movimento. É kafkaniano.

Já disse: não se preocupe. Você não está virando barata. É o alimento dela. E, ali, se sente no seu estômago, sendo digerida pouco a pouco. A sensação não é apenas intelectual e sentimental. É física mesmo. Só os moradores de cidades com um clima parecido com o das ruas de Cuiabá não se sentirão incomodados com o local.

Acredite. No tal corredor, no qual somos recebidos e despachados (com direito a cafezinho, é verdade), onde existem duas mesas e parcas cadeiras impedindo nosso acesso às salas refrigeradas, o calor é senegalesco!

Nada de ar. Nem refrigerado nem circulando. Ainda ouvi um comentário interessante da heroica funcionária obrigada a abandonar sua sala climatizada pra resolver nossas inúmeras pendengas: “Você deu sorte. Como hoje está fresquinho o bafo do ar que entra por esta fresta de basculante não está muito quente, imagina num dia de calor.”

Cheguei a conclusão que o ambiente é uma forma de mostrar como somos bem vindos a nossa própria casa. Quanto mais rápido o desconforto atingir níveis insuportáveis, mais veloz é nossa passagem pelo pedaço.

Foi assim, que agradecendo de coração a ajuda dos muito gentis funcionários, que fizeram tudo para aliviar meu sofrimento, consegui sair para pagar a tal taxa. No banco, que já havia fechado, ao me dirigir ao caixa eletrônico, tive a oportunidade de vivenciar (detesto essa palavra) a última facilidade para realizar minha tarefa: como não tem código de barra, só é possível pagar o documento na boca do caixa. Tudo bem moderno e ágil, como deve ser no mundo atual.

O que vocês estão pensando? O caminho do purgatório ao paraíso é assim. Apenas um passo e algumas tarefas burocráticas os separam. Como é tempo de ressurreição, este é um bom momento pra desejar a todos os leitores que a vida se renove. Desta vez, sem tanta  papelada e exigências emperrantes e brochantes.

Boa Páscoa para todos nós e viva o cinema nacional!

Valéria del Cueto é jornalista, cineasta, gestora de carnaval
*A foto que ilustra o texto faz parte do acervo do projeto Sem Fim… do Pantanal
Este artigo faz parte do Sem Fim 

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