Do sertão de Goiás para as retinas cariocas

Do sertão de Goiás para as retinas cariocas

”Meu rádio, minha vida”, chamou a atenção de nossa colaboradora carioca na 1º Feira Livre; Feira Audiovisual do Rio de Janeiro, na última semana

Valéria del Cueto*

Especial para o Diário de Cuiabá

Vi a capa do DVD do longa de 77 minutos, na mão de Hugo Caiapônia, enquanto esperava o próximo encontro da rodada de negócios para a qual levei alguns projetos da del Cueto; assessoria e produção. Na conversa jogada fora com outro produtor na mesma situação que eu, mencionei que era cuiabana por opção e adoção, o que fez que Hugo me olhasse com olhos de companheiro de agruras do centro-oeste. Acabamos trocando um dedo de prosa quando ele me contou que seu longa, exibido entre os 13 filmes selecionados para a Mostra do Filme Livre, era de Goiás.

DE ONDE?

Goiânia?, perguntei curiosa. Ele me respondeu: de Caiapônia. Olha que eu conheço o Centro Oeste, mas de Caiapônia, nunca tinha ouvido falar. Fica a 330 km da Capital e tem 17 mil habitantes, explicou Hugo, que adotou o nome da cidade como sobrenome artístico para homenageá-la.

O ator, produtor e autor do argumento de “Meu Rádio, minha vida”, rodado em 2005 na região, me apresentou o diretor do filme, Aroldo de Andrade Filho, dono da Gigante Filmes, produtora da cidade que “faz da pipoquinha ao institucional. E, agora, produz longa metragens”, conta faceiro, explicando que um segundo longa, agora em digital, está pronto para ser lançado.

PRODUÇÃO ARTESANAL

O primeiro que concorreu na Mostra, foi feito com uma VHS compacta, com som e luz da própria câmera. Para o diretor, o mais complicado foi o problema do áudio. “Quando o Hugo veio com a história, chegou pra mim na maior das inocências achando que dava pra fazer o filme em uma semana. Fiz o roteiro em cima da história que ele criou, rodamos em 5 semanas e precisei de mais três para editar”, relembra.

“Mas e a equipe? E o elenco…?”, pergunto cada vez mais curiosa. Quem responde é Hugo, o mentor do projeto: “Ué, a equipe fomos nós mesmos. Pra mim, o pior foi a continuidade. Não sabia o que era isso. Como não temos atores, já criei a história botando cada um fazendo o que sabia. Todo mundo participou: secretário do prefeito, cozinheiro, meus filhos, o povo da cidade…” Acho que ele viu minha expressão de surpresa e, para me tranqüilizar, completou: “De todos, três pessoas eram mais experientes, tinham feito teatro na escola e ficaram com os maiores papéis”.

MAZZAROPI DO CENTRO OESTE

Bom, aí eu já estava morrendo de vontade de ver o tal filme e, é claro, faltava uma cópia disponível para isso. Aparentemente, não ia ser ali que eu conseguiria matar minha curiosidade de conhecer “um tipo de Mazaropi, o Imbilino, caipira cheio de tiques e manias, mas diferente”, segundo seu criador. “Todo mundo mostra o caipira rasgado, mal cuidado, como um mendigo do sertão. Imbilino é pobre, mas anda cheiroso, não bebe, nem fuma”. diz Hugo, descrevendo o personagem principal das duas produções da Gigante Filmes.

Antes de criar Imbilino, Hugo, dono de uma pequena fazenda onde cria gado e faz trilhas de moto nas furnas da propriedade, já havia gravado um CD contando piadas, mas, apesar de ter vendido mais de mil cópias, não gostou do resultado. “Foi tudo num estalo”, diz “criei o personagem e a história em uma semana”.

RECORDE DE PÚBLICO

De acordo os produtores, “Meu rádio, minha vida, estourou nas locadoras de vídeo da região. Rio Verde, Jataí, Mineiros, Iporã, Piranhas…” Eles enumeram as cidades do interior de Goiás. “Teve locadora com 4 cópias e filas de 12 pessoas por cópia. Fomos os mais assistidos por semanas”, contam orgulhosos.

Pergunto como não conhecemos este fenômeno. Aroldo explica que esta foi a primeira vez que mandaram o filme para uma mostra cinematográfica. “Não temos condições financeiras, Quando o filme foi selecionado entre os 13 longas da 7ºMostra do Filme Livre, aqui no Rio de Janeiro, conseguimos apoio de um empresário que nos deu as passagens. A verba para a estadia juntamos vendendo camisetas como esta da Gigante Filmes”, diz, mostrando a camiseta usada por Hugo.

RECEPTIVIDADE

Pela recepção dos participantes da Mostra Livre de Cinema valeu a pena o esforço. Várias pessoas se aproximam, enquanto conversamos curiosas sobre a produção. Para Bárbara Castro, 25 anos, “O descompromisso e o lúdico são os destaques do filme. Imbilino é um cidadão esquisito, mas comum. Não é o caipira estereotipado. A criançada adorou, é uma brincadeira”. Lobo, um dos representantes da Programadora Brasil, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, presente na Feira Livre, surpreendeu-se pela qualidade: “Para VHS, é muito bom”, analisa.

Por enquanto ainda não há previsão para o lançamento do segundo filme sobre Imbilino, “A Lua e o Dente”, este, feito em digital. “O filme está pronto, mas estamos segurando”, diz Aroldo. O motivo, acreditem, é o mesmo que provocou uma alteração nos planos de lançamento de “Tropa de Elite”, de José Padilha, premiado com o Urso de Ouro, em Berlim, no mês passado. “A pirataria atrapalha. Tinha cópia de Meu rádio, minha vida espalhada por toda a região”, lamentam os produtores de Goiás.

QUEM ESPERA…

Bom, sei que o crítico Juarez Compertino, do Diário de Cuiabá, adora novidades, mas, desta vez, ele vai ficar só na vontade de conhecer um outro tipo de cinema brasileiro. Até eu chegar a Cuiabá com a cópia que a duras penas consegui ganhar dos produtores da Gigante Filmes, o máximo que ele e todos os interessados poderão fazer é visitar o site www.imbilino.com.br e assistir algumas cenas da produção que foram disponibilizadas no youtube.

Box

RODADA DE NEGÓCIOS

“Fica próxima”, esta foi a frase carinhosa que ouvi, quer dizer, dependendo do contexto em que ela é dita… No meu caso específico, “ficar próxima”, significa ficar em pé, na Casa França Brasil, onde o evento foi realizado, no Rio de Janeiro, aguardando para ser recebida por uma empresa compradora de conteúdo na Rodada de Negócios, uma das atrações da 1º Feira Livre; Feira Audiovisual do Rio.

A iniciativa é muito boa, mas a execução ainda pode melhorar. Foram 63 produtores de conteúdo e 14 compradores entre distribuidores, emissoras de canais a cabo, operadoras de celular, etc. “Todos juntos, mas separados”, como diria Mestre Marçal, o grande percussionista e fraseador. Quanta sabedoria! E quanto peso na bolsa gigantesca que eu carregava com DVDs, projetos e material de divulgação.

A MECÃNICA DA RODADA

Que saber como funciona uma rodada? Pegue uma sala, coloque mesas e cadeiras. Nelas, numa escalação pré-definida de horários, entre 15 e 20 horas, se revezam os compradores. Cada produtor tem 5 minutos para vender seu peixe.

Antes, você já se inscreveu pelo site e disse o que tem a oferecer. A organização banca a casamenteira, fazendo a escalação para conversar com os compradores afins. A idéia é ótima sob vários aspectos. Afinal, junta a fome com a vontade de comer. O problema é a indigestão de informações e a longa espera.

Mas, pensando bem, concentrar sua paciência num par de dias, o tempo de duração do evento, é melhor do que diluí-la em telefonemas com secretárias, agendamentos, deslocamentos e… salas de espera.

Em dois dias é uma overdose de perfis. Uns querem comprar o conteúdo, outros distribuí-los para outros possíveis compradores. Ainda tem os que estão interessados em projetos a serem realizados. No quesito formato tem de tudo: longas, curtas, documentários ficções, séries, programas… De um minuto a duas horas, todo está no jogo da rodada de negócios. Tirando o cansaço, a chance de conhecer melhor o mercado é muito boa.

Se os negócios irão se concretizar, são outros 500. Mas, sem dúvida, a oportunidade é imperdível. Ano que vem Marcelo Brandão, produtor da Rodada, garante que o mecanismo será aprimorado e os pequenos entraves solucionados.

A Rodada de Negócios, assim como outras atividades da Feira Livre , será programa obrigatório não apenas para os participantes do mercado, mas também para estudantes da área. Ali é possível conhecer algumas etapas da difícil arte da produção audiovisual no Brasil. Afinal, se filmar não é fácil, colocar seu produto no mercado é mais complicado ainda…

Eu informo que já comecei a aprender a manha: fico próxima…

*Valéria del Cueto é jornalista e cineasta e colabora com o DC Ilustrado

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