Que torcida é essa?

QUE TORCIDA É ESSA?

Texto e foto de Valeria del Cueto

A esquerda do meu vídeo o Flamengo do lado oposto da tela o Botafogo.

Final da Taça Guanabara, Maracanã, onde o Rio é mais carioca nestes tempos de violência, impunidade e luta pela sobrevivência diária que nos devora no ano está começando. Ver esta massa apaixonada, este estádio lotado cantando é como uma ressurreição.

Todo mundo sabe que sou rubro-negra. O negro faz parte da minha condição humana. Meu pai sempre me chamou de Criola. Eu adoro o apelido que também tem sobre nome: Pé de Pato. A Criola Pé de Pato, esta que vos escreve, foi nadadora do Flamengo. Infantil e júnior. Meu Deus! Cada vez que vestia aquele uniforme, o abrigo do Flamengo, me sentia completamente orgulhosa da minha condição de atleta. Era mais que torcedora parte do Mengão, uma partícula da paixão que sempre me dominou.

Um dia, tive que mudar de clube. Era isso ou largar o esporte, o que ainda não estava na hora. Quando cheguei a nova piscina, avisei aos outros atletas que nadaria pelo clube e por ele daria o meu sangue, mas que ele era rubro-negro. A equipe me acolheu e por mais duas temporadas competi ganhando um punhado de pontos, inclusive nas costas das nadadoras do Fla.

Foi uma época maravilhosa. Tenho amigos que reencontro com o maior prazer nos entroncamentos da vida.

No Pan, soube pelos jornais que o pai do melhor jogador de pólo aquático da equipe americana era um ex-jogador brasileiro. Treinávamos juntos nas águas mais geladas do Rio de Janeiro. A natação e o pólo aquático dividiam as raias no treino da noite, das 18 às 21 horas, na piscina suspensa da enseada de Botafogo. A do alvinegro que hoje enfrenta o meu Mengão.

Estou em casa sozinha mantendo a escrita como costumamos fazer. Se até agora ver o jogo roendo as unhas, vestida com a minha velha camisa rubro-negra, largada no sofá da sala, ouvindo os gritos dos torcedores no botequim do outro lado da rua deu certo, quem sou eu para mudar o esquema?

Pode me chamar para qualquer programa futebolístico que a resposta é não. Daqui não saio, pelo menos neste turno.

Não sou a única fanática que acredita que não se deve mexer em torcida que está ganhando, pelo menos durante um campeonato. Um amigo expulsou a mulher do dono da casa, que estava viajando quando começou a mandinga do turno, por que a presença dela poderia quebrar a escrita. O prejuízo ficou com o marido que teve que liberar o cartão (que não era corporativo) para umas comprinhas da madame no shopping durante o tempo da partida.

Não precisava tanto me confessou a mulher, feliz e cheia de pacotes, dizendo que prefere aceitar a expulsão sem catimbar a aturar o mau humor da cara metade, responsabilizando-a por ter mudado a configuração astral necessaríssima para levar o time à vitória e ao título disputado.

Graças a Deus! Tudo ficou exatamente igual e, de acordo com o almejado, o Mengo levou a Taça Guanabara.  E olha que o Botafogo abriu o placar com Wellington Paulista e ficou na frente até os 18 do segundo tempo, quando Ferreiro fez pênalti e Ibson marcou, apesar da emprenhação do goleiro Castilho. O mesmo que protagonizou, junto com Souza, o  lance que acabou expulsando o jogador  do Flamengo e  Zé Carlos, do Fogão. Mas não ficou só nisso. A expulsão de Lúcio Flavio complicou ainda mais a vida do alvinegro que resistiu com um homem a menos até que na prorrogação Tardelli fechou o placar. Claro que eles não se entregaram e, no último lance do jogo ainda houve um chute na trave do goleiro Bruno.

2X1 pro Flamengo, num partidão cheio de emoções. E que venha o próximo turno do campeonato Carioca, onde já garantimos nossa vaga na final! Talvez no primeiro jogo eu arrisque uma mudança de localização e passe a assistir o segundo turno com algumas companhias. Se não der certo, ainda posso voltar pro sofá sem prejudicar muito a arrancada flamenguista rumo a conquista do Campeonato Carioca.

 Valéria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito

Este artigo faz parte da série Ponta do Leme

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