O rap do Rato Careta

O rap do Rato Careta

Texto e fotos de Valéria del Cueto

Depois de interpretar o aspirante Mathias em “Tropa de Elite”, ator se prepara pra lançar seu primeiro cd de rap
Especial para o Diário de Cuiabá

Difícil resistir ao seu jeito boa praça e tranqüilo quando passeia pelas ruas e é reconhecido pelas pessoas por seu trabalho no cinema. A impressão é geral e se confirma com sua atitude quando entra num café de Copacabana para a entrevista marcada: reconhecido pelas atendentes, André Ramiro, o aspirante Mathias de “Tropa de Elite”, filme que concorre ao Urso de Prata, no Festival de Berlim, pergunta se dá para tirar uma foto com as meninas e não se faz de rogado: passa para o outro lado do balcão para fazer o registro. As moças nem acreditam. Só depois de conversar com elas André se concentra no motivo que nos levou até ali: a produção de seu primeiro CD de rap: “Crônicas do Rato Careta”.

“Eu já era MC, o Matias veio depois”, esclarece André, “através do Matias do filme estou tendo um espaço maior para falar do meu trabalho. Aí as pessoas irão conhecer o André Ramiro naturalmente”, afirma ele. E para quem quer conhecê-lo, a dica é procurar pelo MC Rato Careta. O codinome foi carimbado na Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro, onde ele participou de várias batalhas entre MCs .

“Sou rato, por que o gueto do hip hop carioca é na Lapa, onde costumo versar. Mas como não fumo e não bebo ganhei dos meus amigos do rap o apelido de Rato Careta. A galera do rap diz que a Lapa é um grande bueiro, o underground, e que todos ali são ratos”, conta o MC, deixando claro que não condena ninguém e é de paz. “Não tenho o menor preconceito com quem bebe e quem fuma, só acho que isso não é pra mim.”

Para André, o pós carnaval é tempo de concentrar esforços na gravação de seu CD, “O diretor Bruno Barreto me pediu duas músicas para o longa “Ônibus 174”, isso já é um reflexo do trabalho de preparação do CD que começamos em novembro. Vai ser um trabalho que fala de amor e amizade. Tem críticas sociais, mas transmite mensagens positivas, sem ficar dando muito enfoque à violência”. A música ‘Enfim você chegou’, exemplifica, fez para o filho que tem dois anos. “Fiz um dia depois que ele nasceu. Estava vivendo uma situação meio complicada e quando ele nasceu trouxe uma certa tranqüilidade pra mim. Essa música representa exatamente isso. É uma homenagem para o meu filho e tudo de bom que ele trouxe para a minha vida, o que eu espero pra ele no futuro, aquilo para o que eu vou trabalhar”. Ramiro lembra que só conheceu o pai aos 18 anos. “É muito legal estar fazendo pelo meu filho o que não fizeram comigo”.

O filho, a namorada, a história do amigo que trabalha de camelô, todos fazem parte do universo retratado pelo Rato Careta. “O nome dessa é José Camelô. Na Era do Gelo, eu associo a frieza dos sentimentos do ser humano de uma maneira geral com uma era glacial e Presente Rimático fala do meu presente para as pessoas que estão escutando o meu trabalho. Este presente é a minha rima”. Oferece André, com um sorriso tímido. Impossível não aceitar o mimo.

As rimas da Crônica do Rato Careta têm mais uma particularidade: como e onde foram criadas. O rapper conta que até bem pouco tempo, morava na Vila Kennedy, no subúrbio e trabalhava em São Conrado, na Zona Sul do Rio. “A viagem é longa, eu pegava um ônibus, o 153. Vinha sempre com uma galera dentro do ônibus, era muito divertido”; lembra ele com um sorriso, confessando sentir saudades dos amigos de idas e vindas diárias. “Eu amenizava a viagem batendo papo e escrevendo música. Grande parte das letras do meu cd surgiu dentro do ônibus. Eu viajava, olhava a paisagem e a música que eu ia criando era a trilha sonora da viagem. A partir daí surgiam as idéias. O percurso era longo e dava tempo de escrever as letras, eram duas horas de viagem para ir e mais duas para voltar”, descreve.

Da portaria do cinema onde trabalhava num shopping para as telas do Festival de Berlim, onde Tropa de Elite, de José Padilha, está lançado na Europa, foi um longo caminho. “Eu tenho muito orgulho de tudo isso que eu passei, de toda essa trajetória. Da minha história que não acabou”, ressalta. “Ainda estou na luta, tenho muito para conquistar, muito para aprender e pra fazer. Isso só é o início e tenho que estudar bastante para consolidar minha carreira, crescer como artista. O CD é mais um passo”.

As faixas que estão sendo produzidas num estúdio na Gávea por Gabriela Azevedo, filha de Geraldo Azevedo, com Pedro Guedes, o DJ Pachu e Fred Meliante respectivamente no teclado e guitarra, violão e pickups. “O resto vocês vão saber quando escutarem o CD. Tem que deixar um pouco da surpresa também.”

Surpresa essa que vai só vai acontecer no segundo semestre, quando o trabalho for lançado e, aí, reside mais um trunfo de André Ramiro: “Eu vou gravar o cd em SMD, uma proposta para novos artistas e artistas alternativos”, explica, “você prensa o cd a um real cada cópia e se compromete a vender a 5 reais”, Segundo ele, a intenção não é levantar uma bandeira contra a pirataria, como já foi sugerido. “Minha intenção é possibilitar que o maior número de pessoas possível tenha acesso ao meu trabalho. Meu quesito para quem quiser distribuir o cd é que custe 5 reais, seja barato,” planeja. “Espero que o pessoal curta. Estou trabalhando com muito afinco, para que fique legal.”

Quem quiser ver o trabalho agora vai ter que esperar um pouco. Depois uma série de trabalhos de final do ano, ele agora se dedicará integralmente às gravações das Crônicas do Rato Careta. “É hora do rato se entocar e produzir”, resume ele, cheio de animação.

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