Gatilho

Ilha-Grande-Longa-fundo-pi

Um dia, sem querer, a gente baixa a guarda…

Está tudo nos seus devidos lugares, a vida finalmente nos trilhos, os horizontes devidamente delimitados.

Resultado de um longo e solitário esforço de reconstrução interna, afastamento crítico e uma vontade nem sempre ferrenha de voltar ao mundo, à civilização.

Teve um preço muito alto, o isolamento. A necessidade de escolhas radicais, o não viver, nem sentir. A redução do universo – até então infinito – a uma área mínima, íntima e confiável.

Dali, daquele ponto, pouco a pouco, vagarosamente, recomeçar a abrir a porta. Primeiro uma fresta. Seguida de uma luz forte, intensa e cegante até a vista se acostumar. Depois o vagar inseguro por áreas adjacentes.

O medo. Sempre. Medo do encontro consigo mesmo. O sono como escape alternativo, o sonho impossível de ser controlado. O despertar aliviado, para cair novamente na realidade. Inexorável. O tempo não passa para transformar a dor em lembrança.

A ausência teimando em queimar como fogo. Um dia após o outro. Meses, anos dentro da redoma invisível. Lapsos de realidade, tarefas, obrigações, compromissos e funções.

Parece que o sacrifício valeu. Pros outros. Quem sempre foi rebelde agora se olha sob os olhos da covardia. O medo. A culpa.

O segredo é seguir em frente como der. Cumprir etapas, encarar o mundo mesmo que através dos óculos escuros que diminuem o impacto da luminosidade estonteante. Paz, segurança, limite.

Aí, o clic do gatilho. Arma, cão, cano, culatra, tambor.

Da morte, não há o que temer. Mas o que vislumbra, no infinito espaço de tempo, antes do alvo se atingido, acaba com as poucas esperanças de aceitar o destino sem estraçalhar os sentimentos. Por ver o que sempre almejou: sonhos realizados, angústias decifradas… Tudo através da saudade devastadora de um espaço físico que abandonou na tentativa de fechar seu mundo. Reduzir a nada as possibilidades.

…………………………….

O mergulho nas águas frias e cristalinas ao amanhecer. A visão dos raios solares iluminando corais, pedras, conchas, areia, estrelas do mar, peixes grandes e pequenos. Azul, verde, sal. Falta de gravidade.

Fica lá em baixo até um último sopro de ar deixar o corpo através do snockel. Apnéia. Vai mais fundo em busca do encontro da extremidade da ilha com a areia nas profundezas do oceano.

Não era hoje, por que não havia ressaca. A água não estava turva e a paz reinava no mundo marinho que recebia de volta, de braços abertos, o elemento ausente. Como se nunca tivesse saído de lá. Abandonados ali no fundo, como um tesouro pirata, os antigos ideais. Protegidos, por todas as lendas e maldições, contra quem ousasse tentar viola-los.

O ar acabou antes que pudesse desarmar as armadilhas e abrir sua própria caixa de Pandora. Não temia, pois achava que não haveria como voltar à superfície. Apenas encostou os pés na areia, movimentou os braços, fletiu os joelhos e deixou o corpo subir lentamente em direção a claridade, sem esperanças. Olhou para a luz, fora do seu alcance e deixou tudo apagar…

Voltou a si numa casa de paredes claras, portas e janelas rústicas e piso de madeira. Um raio de sol que dançava no seu rosto através de uma telha transparente incomodava. Ouvia risadas cristalinas e uma conversa animada sobre assuntos que conhecia bem: o ronco da tempestade em setembro, anunciando a ressaca de carnaval, as espécies de peixes que vieram nas redes dos caiçaras. Ao fundo um rádio mal sincronizado tocava música e anunciava os festejos na região.

Fecha os olhos e tenta se localizar. Ouve os passos de alguém que se aproxima. Reconhece o andar, o jeito de espreitar. Sente o peso das mãos que faziam a rede onde estava balançar suavemente.

Deixa-se embalar esperando encontrar o menino de 12 anos. O amigo tímido. Levou anos para conquistar sua confiança, agindo como quem se aproxima de um bichinho selvagem, sem movimentos bruscos, muito suavemente, deixando que ele determinasse o grau de intimidade.

Abre os olhos e arma um sorriso. Vê a sua frente não o menino, mas um rapaz. Retrato melhorado, se é que isso é possível, do pai. Ele dá um passo para trás, recua, se apruma.

Tenta se levantar, entende a mão, pedindo ajuda para deixar a rede. Ele não se move, mãos largadas ao longo do corpo. Cai em si. O olhar do rapaz impõe uma distância impossível de ser transposta. Anos de perguntas não respondidas, de ausência inexplicada, de convivência perdia.

Não por culpa dele, mas sua. Decretou a própria morte em vida e, ao fazê-lo, impôs a perda aos que o amavam e não tinham nenhuma responsabilidade sobre os rumos que escolheu para seguir…

………………………………………

A dor explosiva não atinge o corpo. Milésimos de segundo praticamente eternos passaram e a explosão não veio. Nada. Vácuo, silêncio.

Mas o alvo foi certeiro. Explodiu o cadeado que fechava a tampa do baú do tesouro esquecido no fundo do mar. Pandora grita, Pandora cobra.

Agora só resta uma possibilidade. Esperar a ressaca passar, a água clarear, os visitantes de verão deixarem a ilha, o mar devolver o lixo que trouxeram. Depois, é içar vela, com o mínimo de bagagem possível, o corpo leve, a alma quase em paz.

Em busca da maresia, do ruído do motor, do vento nas horas de calmaria. Reencontrar seu povo das ilhas e esperar, do fundo do coração, que eles entendam que ninguém consegue ser perfeito. Que sempre é hora de reencontrar quem sempre abriu os braços para agasalhar e retribuir o carinho – nunca negado – mas surdamente ignorado por tanto tempo.

Quanto tempo… Perdido.

Saudades do Brandão, da Longa, de Angra. Onde, um dia, perambulando entre as ilhas fui muito feliz.

Foi lá, um dia…

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