Corra e olhe…

PL001Ponta-ParaisoCORRA E OLHE…

De Valéria del Cueto

 Após o dia mais frio de 2007, o seguinte é um dia lindo de outono, com aquelas cores indescritíveis desta época no Rio de Janeiro. Nas ruas do Leme passo pelo comércio em frente a minha casa. Moradores locais desfilam encasacados.

Ao ultrapassar a muralha das sombras dos edifícios, as cores e a energia se transformam. Vibram. Da esquina é como se olhasse o paraíso ao longe. Luz sol, calor.

Tomo meu rumo cumprimentando os conhecidos. No calçadão encho meus pulmões do ar salgado da minha praia, do nosso mar.

Aí começa a sessão Ponta do Leme de mais um dia abençoado. Dia de luta, como todos os outros. Mas abençoado pelo divino com essas tonalidades, a brisa leve que não castiga e me permite deixar largada em cima da canga a camisa de manga comprida que substitui a sem roupice do verão carioca. O biquini veterano da estação passada agradece, pede passagem e volta a ser um peixe dentro da água, exposto ao sol e ao sal.

A ressaca de ontem era palco de manobras arriscadas e geniais dos prancheiros que riscavam deslizes voadores sobre as ondas e correntes caprichosas. As mesmas que explodiam contra a pedra, subindo metros e metros e formando leques e chafarizes de água.

Atos efêmeros e únicos deste espetáculo da natureza. Privilégio dos gatos pingados que apostaram na contemplação passiva e respeitosa, no meu caso, dos humores do oceano. Uma fita amarela indicava a interdição de, pelo menos, metade do Caminho dos Pescadores, expulsos pelas forças marítimas indomáveis. Sem direito a negociação.

Mas tudo na vida muda e hoje é outro dia, com o mesmo sol maravilhoso, apesar do frio… Os pescadores voltaram a reassumir seus lugares ao longo do Caminho. São pontinhos coloridos na linha horizontal que corta a pedra até quase sua curva em direção ao mar aberto.

As pranchas e seus ocupantes estão lá. De outro tipo. Menores e menos imponentes, assim como as ondas, ainda grandes, porém mais clássicas e menos rebeldes. Por isso os movimentos são menos criativos, não chamam tanto minha atenção.

Sorte sua. Ontem, hipnotizada pelas performances, torcendo pelo sucesso dos ases que desafiavam o humor inconstante das ondas, nem me passou pela cabeça escrever uma crônica.

Hoje me bastam as pausas entre o encadeamento de uma idéia e outra para saciar minha fome de mar. Não estou com aquela sensação de “sorver a vida, antes que ela se transforme”. Então, posso com calma tentar passar para o papel a mágica que me move, mais uma vez, a falar da pedra, da Ponta e desta praia. Do Leme, com o Leme e pro Leme…

 Valéria del Cueto é jornalista e cineasta

Série “Ponta do Leme

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