“Um escritor não é um escritor por natureza”, diz Mia Couto

Paraty N141011 105 Casario correnteOu…

MIA COUTO ENTRE O SER E O ESTAR ESCRITOR
Mia Couto nasceu na cidade da Beira, Moçambique, em 1955, filho de pais portugueses. Um dos mais destacados nomes da literatura africana de expressão portuguesa, é o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos escritores estrangeiros mais vendidos em Portugal (com mais de 400 mil exemplares). Em 1992 publicou seu primeiro romance o premiado Terra sonâmbula. Suas obras foram publicadas em 23 países além de Moçambique e Portugal: Brasil, Angola, Inglaterra, Espanha, Eslovênia, Noruega, França, Itália, Suécia, Alemanha, Holanda, Bélgica, Chile, Dinamarca, Grécia, Finlândia, Grécia, Israel, África do Sul, Croácia, República Tcheca e Bulgária.

Depois de participar da luta pela independência de Moçambique, afastou-se da militância política e se tornou jornalista. Dirigiu a Agência de Informação de Moçambique, a revista “Tempo” e o “Jornal de Notícias”. O teatro é outra paixão: colabora com o grupo teatral “Mutumbela Gogo”, da capital moçambicana, para o qual escreveu ou
adaptou diversos textos.  Mia Couto é biólogo, especializado em ecologia.

Na Flip, em Parati, falou muito sobre o ser, o estar e sua preocupação em ser quase, como forma de se sentir completo.

Você declarou que quer estar escritor e não ser escritor. Qual a diferença?

Um escritor não acontece por que é um dado essencial. Ele não é um escritor por natureza. Não está inscrito nos seus genes que ele vai ser um escritor. Portanto, ele é um escritor enquanto mantém uma relação com a escrita, com a palavra, com o mundo, com os outros que se realiza desta forma. Que se realiza por via dos livros, da palavra
reinventada. Portanto, eu não tenho nenhum destino que me marca para que eu seja escritor. Agora, eu tenho, sim e todos temos aí, acho que isso é uma coisa genética, temos marcas dentro da condição humana, a nossa ansiedade de manter uma relação criativa que nos permita redescobrir o mundo, reinventar e mundo. E isso pode ser feito de diferentes maneiras.

Você foi jornalista, agora é biólogo. Como é esta caminhada por estas vias, que na verdade te colocam sempre em posições importantes diante do mundo atual. Primeiro como jornalista na época da guerra de Moçambique e, agora, como biólogo em tempos de aquecimento global?

Você fez a pergunta dizendo “você é biólogo, foi jornalista”, usando o verbo ser. É evidente que eu entendo o que você quer dizer. Mas eu acredito que no que faz misturar o fazer com o “ser” com o “fazer”. Eu faço biologia, mas eu não sou biólogo. E se sou, eu quero fugir disso o mais possível. Quer fugir disso como uma identidade. Se dizem assim:
“você é jornalista” ficam de fora todas as outras normas de fora. Todas as outras pessoas que estão dentro de si. O que é a mesma coisa se falarmos de outras condições mais essenciais. Você é brasileira,mas sendo brasileira, é muitas outra coisas. Você é mulher e sendo mulher, de vez em quando, é  homem também. Eu também sou no sentido oposto. Esta plasticidade daquilo que aparece sendo como identidade émuito importante.

Eu sou muito sensível a estes que são os convites que nós temos para ter uma postura reclamando por um mundo melhor. Mas hoje já entendo que eu não assumiria um discurso partidário ou um discurso de uma
causa. Penso sempre saber que isso pode ser uma coisa redutora. Para mudar o mundo não se pode lutar somente pela ecologia. É preciso se mudar o mundo radicalmente e a primeira mudança é uma mudança de pensamento. É uma mudança que nos encoraja a questionar, em primeiro lugar, aqueles que são pressupostos de ver o mundo, olhar para o mundo.

O que você gostaria de ser e o que você consideraria que é?

Eu queria não ser. Antes eu gostaria de não ser um escritor, um jornalista em via de ser qualquer coisa. Não sei se você estava no encontro que tive com Antônio Torres. Eu queria ser quase qualquer coisa. Isso não quer dizer um convite à irresponsabilidade, ao fato para escapar de minhas obrigações morais. Eu tenho este sentimento que
tenho que ajudar a mudar alguma coisa. Eu tenho tanto da vida, tenho tanto sentimento, tanto pensamento, que eu preciso fazer qualquer coisa, então tenho que ser mais coisas possíveis. Eu trabalho com teatro, sou biólogo, sou escritor, fui professor até uns três anos atrás e, portanto, distribuído entre estas várias coisas eu tento escapar a esta condição de ter que ser uma coisa.

Na sua participação aqui na Flip, você falou uma coisa muito interessante sobre a forma que as pessoas têm que assumir quando estão em determinados lugares, mas que não são determinantes e de uma certa maneira até atrapalham.

Eu falei isso? (risadas)

Sobre coisas que as pessoas têm que assumir ou escolher como identidade, como forma de se reconhecerem dentro de um determinado contexto.

Tem com o fato da minha condição misturada e com a minha condição de viver sempre no limiar, digamos assim. Eu sou filho de portugueses que migraram para a África então tenho uma linha divisória entre a áfrica, entre as raças, entre as religiões – a religião africana e a religião católica minha de origem e eu que sou ateu, que não tenho crença -,
entre pressentimentos de tempo. Eu herdei esta ideia de um tempo linear, mas tenho outra concepção de tempo, um tempo circular. E tudo isso, durante um tempo me atrapalhava. Eu achava que tinha que resolver isso. Essas dualidades, esta multiplicidade. Hoje acho que é uma coisa que tenho que aceitar como territórios que estão dentro de mim, eu posso saltitar entre eles, posso combinar e posso  ter uma atitude diferente. Posso ser um mulato de existências e não de raças. Isso me dá uma extrema felicidade.

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