Flip 2007 – “Parati é o paraíso na Terra”, diz Nobel de Literatura na Flip

Paraty N141011 105 Casario corrente“PARATI É O PARAÍSO NA TERRA“, AFIRMA NADINE GORDIMER, PRÊMIO NOBEL DE
LITERATURA

A senhora magra de 83 anos, cabelos grisalhos presos num coque, vestindo calça larga e camisa poderia passar desapercebida no meio de tanta gente que circula na FLIP, em Parati, não fosse ela Nadine Gordimer, vendedora do Prêmio de Literatura de 1991.

Pouco conhecida no Brasil, onde foram publicados os romances “A arma da casa”, “O engate”, “Ninguém para me acompanhar”  (Companhia das Letras), “A filha de Burger”, “O pessoal de July”, “Uma mulher sem igual” e a coletânea de ensaios “O gesto essencial” (Rocco), Nadine escreveu cerca de quinze romances, numerosos contos e ensaios sobre as relações entre a literatura e a política. É embaixadora da Boa Vontade do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e vice-presidente da Associação Internacional dos Escritores, ONG
filiada à Unesco.

Antes de participar, junto com  Amóz Oz, da mesa “Panteras no Porão”, falando sobre o significado da literatura num país dividido pela história, embotado pela opressão ou dilacerado pela violência a escritora, que lutou contra o apartheid e atraiu a ira do governo sul-africano, que censurou vários de seus livros, conversou com jornalistas, numa entrevista coletiva.

Suas obras são politizadas. Como a literatura pode fazer a diferença?
Você começa a ser muito crítico em relação às coisas que você observa e acaba sendo banido. Três dos meus livros foram banidos, mas ainda assim continuei a escrever. Se você tiver sorte de escrever numa língua universal seus livros podem ser publicados em outros lugares. Mesmo que você seja calada em casa a sua voz vai ser ouvida em outros lugares e vai afetar a vida de outras pessoas. É por isso que eu acho que a literatura pode provocar mudanças.

No seu último livro o personagem principal é uma ativista ecológica….

Esta é uma questão política que não se limita a um país, afeta a todos os países,  afeta a toda a humanidade, às gerações futuras. Em algum momento a gente deveria se unir, esquecer classes, cores e diferenças. Este é o momento, na questão ambiental.

De que maneira o apartheid afetou a sua vida? Hoje temos aqui o apartheid social…

Tenho consciência, sei do apartheid que existe hoje aqui que está relacionado aos graus de cor da pele. Por ser branca automaticamente ao nascer tive o direito de ir a uma escola para brancos, tive dinheiro para ir ao cinema, a uma aula de dança. Quando era jovem surgiu o apartheid institucionalizado, mais forte do que havia sido o anterior. Todas as pessoas foram afetadas. Tive amigos pessoais que foram presos por terem relacionamentos entre um homem branco e uma mulher negra ou ao contrário. A parte mais íntima das pessoas foi afetada. Havia a reserva de empregos na qual certos empregos eram só dos brancos e outros, como trabalhar nas minas eram reservados aos
negros.

A geopolítica atual está voltada para o Oriente Médio. Como você vê a África do Sul neste contexto?

O que todos os países buscam é o capital, o desenvolvimento da indústria, das telecomunicações, mas embora a África do Sul esteja numa boa posição em relação ao restante da África, essa chegada não pode significar o retorno de um padrão colonial. A entrada do capital tem que treinar a população para que ela possa assumir o comando do
processo. Na África atualmente há uma grande entrada de produtos chineses que chegam muito mais barato do que produtos locais, mas se sabe que são produzidos com trabalho escravo, com trabalho infantil. Isso vai contra o ideal das populações africanas. Ainda mais sabendo que são populações que passaram por este problema e que superaram esta forma de produção.

A literatura é capaz de provocar sentimentos muito fortes e emoções muito fortes. Mas de que maneira a literatura é capaz de tornar histórias reais  em ficção?

Não é muito difícil fazer o contato entre a vida privada e a vida política, por que a vida das pessoas estava afetada diretamente a situação política. Como todas as vidas estavam situadas dentro do contexto político a vida privada era afetada imediatamente, então era possível fazer esta ponte.

“O único sentido da vida é aquela que acaba”, diz um ditado. Seria esta a descoberta feita pelo personagem Paul Bannerman, no seu livro “De volta à vida”?

Não, não acredito. O personagem tem um tipo de câncer que precisa ser tratado com radioterapia. Ele próprio se torna radioativo e passa a irradiar a radiação. Então, ele está dentro deste paradoxo de ter lutado contra a energia nuclear a vida inteira e agora ele se torna uma fonte de radiação. Isso também é uma forma de ligar a vida pessoal
dele, com a vida política que ele levou a vida inteira.

E sobre Paraty?

Eu não sei como é viver aqui permanentemente, mas, para quem vem de fora, é o paraíso na terra. E para alguém que não acredita na vida após a morte, como eu, isto aqui é o melhor que se pode encontrar ainda em vida.

de Paraty, Valéria del Cueto para o TERRA

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