Flip 2007 – Flip: moçambicano fala sobre literatura em nações pobres

Paraty N141011 105 Casario correnteMIA COUTO ALERTA: NAS NAÇÕES POBRES, HÁ GUERRA NA PAZ.

Uma conversa leve e divertia. Assim pode ser definido o encontro dos escritores Mia Couto, Antônio Torres e José Eduardo Agualusa. Os dois primeiro eram os convidados da mesa “Terras”, o terceiro, mediava mais um encontro literária da FLIP, na tarde desta sexta-feira, em Parati.

Autor de Terra sonâmbula, o moçambicano Mia Couto, em seu livro de estréia, lança um olhar melancólico sobre um país devastado pela guerra civil. Em “Esta Terra“, sua obra mais aclamada, Antônio Torres, romancista baiano, conta as amarguras de um imigrante nordestino que, para buscar uma vida melhor na cidade grande, abandona sua terra.

Já na apresentação dos autores, José Eduardo Agualusa fez o link entre ambos, afirmando que “ser baiano é uma forma linda de ser africano”, ao apresentar o escritor brasileiro. A partir daí o público presente nas Tenda dos Autores e da Matriz acompanharam uma conversa cheia de reminiscências e lembranças.

Mia Couto, mais uma vez, reforçou a influência de Guimarães Rosa em sua literatura. “Nos livros, eu construo uma linguagem que é minha”, explicou. Antônio Torres pegou a deixa e foi mais longe, afirmando que “o sertão está em toda a parte, eu acho que Guimarães Rosa está em toda parte”

Citando escritores, cantando trechos de músicas de Caetano e Luis Gonzaga, ele falou de sua origem interiorana: “O sertanejo fala por atalhos. Lendo Mia  achei termos da minha infância. É um português mais antigo. Eu o leio como a sonoridade, a oralidade de uma língua antiga”, analisou.

Provocado por Agualusa, que lhe perguntou se entre Moçambique em plena guerra, ou em tempo de paz, ele consideraria o tempo de paz mais interessante, Mia Couto respondeu que “hoje, todas as nações mais pobres enfrentam uma guerra, um processo de desmoronamento, mesmo quando pensam que estão em paz”.

Antônio Torres, citando o escritor americano Scott Fitzgerald, autor de “O grande Gatsby”, que disse que “o progresso é o desencanto contínuo”, reclamou, ao voltar ao interior da Bahia, onde nasceu, das estradas (agora asfaltadas), das antenas parabólicas, do fato de ter encontrado “tudo internetizado”. “Senti falta da boa e velha
sociabilidade. Acabou a conversa na calçada, na cozinha, com aqueles  panelões. Agora a viagem é outra. A estrada não é mais de terra, é de asfalto. Venho de um mundo de carência total, de isolamento”, lembrou ele. “Para mim foi ontem, mas aconteceu nas décadas de 40, 50. São reminiscências do sertão.”

Este tipo de lembrança não faz parte do imaginário de Mia Couto, que afirmou sentir mais nostalgia das coisas que não aconteceram na sua vida. “Tenho péssima memória. Tudo é fragmentado”, explicou o escritor moçambicano.

Outra questão levantada por Agualusa foi  quanto a necessidade da literatura ter um lugar. A resposta coube á Antônio Torres: “Ela tem que ser o que o autor quiser. A que nós três fazemos é da origem que seu coração mandar. Seu temperamento, a história. O lugar do escritor é a palavra, o texto”.

Na tarde ensolarada de Parati, a platéia acompanhou a conversa dos amigos e, ao término do encontro, ficou com a impressão que o bate papo poderia continuar por muito mais tempo. Quem sabe num dos bares espalhados pela cidade histórica…

de Paraty, Valéria del Cueto para o TERRA.

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