Flip 2007 – Lobão polemiza na Flip e diz que sente saudades da ditadura

Paraty N141011 105 Casario corrente

Ou..

A FLIP É POP: Os Uivos de Lobão e Chacal

Na primeira manhã da maratona composta de 21 mesas distribuídas nos 4 dias da Festa Literária Internacional de Parati, os UIVOS, tema da mesa 2, composta por  Lobão e Chacal, arrancaram aplausos tanto de quem assistia o encontro ao vivo, na Tenda dos Autores, quanto dos que acompanhavam, na tenda da Matriz, pelo telão, falando sobre a música que há na poesia e a poesia que vira musica.

Lobão, participa pela primeira vez do evento e se apresentou como músico “me considero uma pessoa que tem preguiça mental. Primeiro faço a música, a letra vem depois”. Ele abriu os trabalhos com uma exceção à regra que acabara de ditar, cantando a “Balada do Inimigo” e explicando que, nesta composição havia ocorrido o inverso. primeiro veio a letra, depois a musicou.

Chacal, um dos fundadores do grupo de poetas “Nuvem Cigana”, na década de 70, disse ser este um momento de apogeu, por lançar em Parati suas obras completas “um livro que fica em pé sozinho, sem precisar se apoiar nos outros”.

O poeta ressaltou sua ligação local “No início da minha vida eu me dividia entre o submarino amarelo e os camburões da ditadura. Era o Rio de Janeiro da repressão e a Parati dos sonhos. A cidade é um marco na minha vida”.

Apresentações feitas, as diferenças foram ressaltadas. Para Chacal, “poesia é música. Sabendo usar sua potência, sua força, ela se transforma num canto”. Num pequeno recital ele exemplificou o que dizia, mostrando algumas de de suas poesias. Lobão, ao contrário, explicou que sempre foi da música, tendo começado a tocar bateria com 3 anos. Segundo ele, sua mãe detestava poesia e teria sido justamente com o grupo Nuvem Cigana que ele pegou gosto pela coisa e deixou de lado a preguiça mental que o impedia de escrever. “O cantor na banda de rock era como o goleiro no time de futebol. Quando você não sabia tocar nada, virava cantor”.

A deixa levou Chacal a falar sobre a Blitz, grupo de rock dos anos 80: ” O rock de breque permitia fugir das linhas melódicas”. Para ambos nunca foi fácil fazer músicas de encomenda. No caso do poeta, nada contra pegarem seus poemas e musicarem. Já com Lobão a batida é mais radical “A música é tirana, soberana. Nunca consegui musicar um poema alheio”.

“Hoje falar a poesia me satisfaz. Me realizo melhor na poesia falada”, explicou Chacal, exemplificando com um pequeno poema chamado “Rápido e Rasteiro”: “Vai ter uma festa em que vou dançar até o sapato pedir para parar. Aí eu tiro o sapato e danço o resto da vida.”

O diálogo continuou com Lobão aproveitando o mote para falar da próxima música que apresentou, composta quando Tom Jobim morreu: “Lembrei do Samba do Avião, aquele que todo mundo lembra quando chega no Rio. Eu pensei, o avião caiu, o Rio não é mais aquele. Aí eu fiz o “Samba da Caixa Preta”.

PROCESSOS CRIATIVOS, PRODUTOS INDUSTRIAIS
Segundo Chacal, em 1971, a ditadura militar facilitou o trabalho de edição de livros de poesias no mimiografo por que reprimia este tipo de expressão  mais libertária, marginal. “Hoje em dia o sistema absorve qualquer coisa, é mais difícil ganhar exposição”. O assunto fez um Lobão, até então comportado, disparar sua metralhadora giratória: ” Que saudade da ditadura. pelo menos eles nos transformavam em heróis. Hoje paga-se por tudo. Nós vivemos num país
em que tudo é achacado pelo jabá. paga-se para tirar multas de trânsito, para aprovar uma lei…”

Sobre sua volta para a indústria cultural explicou: “Se a gente não driblar estes processos, a gente vai se auto exilar. Vamos ocupar espaços, aparecer no Faustão, fazer acústicos da MTV e falar, dizer. Se a música independente não tomar cuidado, vai ficar num gueto.”, profetizou aquele que ao falar sobre a mesa da qual participava se apresentou dizendo:”Yo soy Lobon”.

Palmas para o POP. Na Flip, seja na música ou na literatura, ele merece!

de Parati, Valéria del Cueto

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