Nada é perfeito…

Imag019-Leme-praia-cheia-pedraNada é perfeito…

de Valéria del Cueto, 2007

Nem o paraíso. Para transformá-lo no portão do inferno é um pulo!

Contrariando um dos artigos dos 10 mandamentos dos ratos de praia, não resisti ao calor e a ausência – quase maquiavélica – da minha banda larga e, mesmo sendo sábado, corri, me dirigi cheia de (boa) vontade para a praia, no Leme.

O destino, o de sempre. A esquina da Martim Afonso, do prédio azul de um lado da rua ao das caixas d´água, o penúltimo da praia, onde fosse mais convidativo. Foi por ali que me instalei.

A princípio a idéia era ignorar o entorno e fazer uma manutenção no bronzeado. Simples assim. Comparando a um dia normal da semana, eu diria que a praia estava… ocupada. Não superlotada como Ipanema, mas… ocupada.

O mar mansinho incentivava a permanência. Perfeito na forma, porém horrível no conteúdo. A água estava imunda. De sujeira trazida pela maré e de coloração. Tipo caldo de cana. Velho! Amarela esverdeada e opaca. O que não preocupava os banhistas de fim de semana que tentavam se refrescar no calor da sopa de espinafre com batatas.

Ô soléu!

Eu já disse que sou a lei de Murphy em pessoa? Justamente ao meu lado começa um ajuntamento estranho. Barracas, cadeiras, alguns maquinistas (isso mesmo!) produtores e… uma câmera. Dia perfeito para umas cenas em meio a farofada
geral. Ao fundo uma batucada substitui o som nas caixas dos barraqueiros. A briga é boa.

A minha frente desfila um senhor, com todo o respeito, com uma sunga repleta de bandeirinhas do Brasil. Ridículo, coitado… Ornou com o verde do meu biquíni discreto. Isso aqui está parecendo a antiga Sears: “Tem de tudo…”

Me desmilingüo de calor, sem coragem de chegar até a sopa. Fico imaginando a temperatura da rapaziada que continua desempenhando a honrosa tarefa de gravar vários takes para uma produção qualquer. Todos vestidos de gente, derretendo sob bonés e chapéus ineficientes.

Devia ser proibido filmar o Leme com a água naquele estado. Acaba com nosso cartaz. Fazer o que? Tudo, menos me estressar. Estou francamente no lucro. Tenho mais uma crônica pronta e reforcei o bronzeado como havia planejado.

Pude, mais uma vez, comprovar que sou uma privilegiada. É. Sabe para que serve um dia infernal no paraíso? Para a gente saber dar ainda mais valor ao que tem. Mesmo que, vez ou outra, a coisa degringole. E fim de papo.

Levanto acampamento, que também não sou masoquista. Inferno constatado, paraíso valorizado, é hora de partir para o próximo programa. E aguardar. Melhores dias, outras marés e novos ventos. Nesta mesma praia. Eles certamente chegarão.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

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