Quem pode vê. Não pode? Então lê…

Imag005

Quem pode vê. Não pode? Então lê…

texto e foto: Valeria del Cueto, abril de 2007

Hoje o mar só está pra peixe. Peixe e outros poucos afins. Com ou sem pranchas. Todos de pés de pato. São acessórios essenciais para escalar as montanhas de água que se formam a minha frente. Quando os poucos surfistas, body boarders e jacarezeiros ( queles que pegam jacaré ou onda de peito, sem acessórios além dos já citados pés de pato) conseguem estar no cume das ondas, o bale começa. A maioria não quebra, desliza, permitindo evoluções e manobras sensacionais.

Alguns mais afoitos colam na parede da Pedra do Leme, quase no final do Caminho dos Pescadores, esperando as ondas mais aguardadas e raras, que só surgem no auge do mar alto. Seu movimento acompanha a curva da pedra e só quem realmente sabe o que faz enfrenta o mar naquela área. Se pra quem assiste o espetáculo, como eu, é emocionante imagine a adrenalina dos que protagonizam o show voando rente a rocha, evoluindo na raia imaginária estreita, perigosa e totalmente irresistível pra quem tem peito e sabe das coisas.

O legal é que, apesar do mar estas puxando, as formações das ondas permitem que se aproveite todas as etapas de seu desenvolvimento: da primeira enchida, à formação da crista, que emagrece a base da onda, sua passagem pela arrebentação e a marola final, quase chegando na beira da praia.

O lado ruim é que é a água está imunda com enormes manchas de espuma amarelada. Como há muita ondulação, dá para observar a maré de sujeira que vem do lado de Botafogo, da boca da Baia de Guanabara e costeia o morro, seguindo para Copacabana.

Especificamente hoje isso não representa um grande empecilho para a minha rotina de praia. Muita água vai ter que rolar no meu projeto hidroginástica antes que eu me sinta capaz de dar uma nadada num mar desse porte.

Há um tempo atrás decidi voltar a fazer exercícios sistemáticos e escolhi a hidroginástica para começar a readquirir minha forma física. Já havia tentado essa façanha outras vezes, com uma carga inicial mais pesada e com maior impacto nos exercícios, mas sempre acabava me contundindo no meu entusiasmo inicial e desistindo da empreitada.

Acreditem. Quem me pôs no prumo atual foi minha avó. Não posso dizer que ela é minha personal trainner. A professora se chama Isabela. Mas tenho noção exata da importância de minha mentora, Dona Ena: todos os dias ela liga para me acordar e me espera passar por sua casa, onde me fornece duas xícaras de cafés preto. Também filo as pontas e o miolo do pão de sal que faz parte do seu café da manhã. É ao seu lado na piscina do clube do bairro que me esmero nos exercícios destinados a recuperar minha outrora invejada massa muscular. A perseverança está valendo a pena. Quero ver se minha assiduidade vai ratear quando o inverno chegar (inverno? no Rio?). Em dois meses de esforço concentrado, só faltei a uma única aula.

Como uma coisa leva à outra, quando saio da ginástica, já tenho rumo certo: me encaminho diretamente pra praia e ocupo meu posto preferido de observação nas areias do Leme. Afinal, todo esforço merece uma recompensa e não existe recompensa melhor que poder filmar e exibir os humores do oceano que enche meu horizonte matinal. Principalmente em dias como hoje, quando a majestade e a força das correntes e marés não deixam dúvida de que se há vida e ela é boa, é melhor ainda aqui na Ponta do Leme.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s