Se fosse só a felicidade…

SE FOSSE SÓ A FELICIDADE…

texto e foto de Valéria del Cueto

março de 2007

Vim correndo. Não hesitei. Os sinais ficaram claros e a crise eminente. Não titubeei nem esperei os próximos acontecimentos. Conheço esta paradeira, reconheço cada sintoma. O mundo parou. Mesmo sem que eu tivesse pedido pra descer.

O dentista desmarcado. Antibiótico mudando o paladar, impedindo de beber, proibindo de tomar sol…

Provas se aproximando, feriado de Páscoa dedicado aos estudos. Trabalho em compasso de espera, pela liberação da trilha sonora que depende do recolhimento de autorizações a serem encaminhadas à editora da música escolhida para Alegro 144, pelo ok do entrevistado ilustre e tímido, pela resposta de mais um edital público. Nem trabalho burocrático há para serexecutado. Tudo em ordem.

Ordem?

Caiu um prato na minha felicidade. É, é isso mesmo. O vaso em que ela teimava em virar planta foi atingido por um prato voador, caído de algum apartamento debruçado sobre o jardim que cultivo no primeiro andar que habito.

Durante anos cultivei minha felicidade. Não ficou enorme como a da minha avó mas, dentro do possível ela se desenvolvia. Aliás, esteticamente falado, ela tinha um aspecto, digamos, desordenado. Pois não é que ela morreu? Definhou rapidamente. As folhas secaram e nem seu tronco ainda fininho se manteve firme.

Chorei por ela até ganhar uma nova mudinha, ainda pequenininha, que disse minha vó, apareceu ao lado da grandona dela. Foi nessa que o prato caiu. O prato virou caco e desfolhou minha felicidade . O estrago foi grande, mas espero que ela resista sem alguns galhinhos e folhas. Acho que não foi atingida na sua estrutura. Só o tempo dirá. O tempo…

Pois foi essa pasmaceira indefinida que estava me dando vontade de chorar. Meu destino é afundar no livro de sociologia que preciso ler para a faculdade. Se não fosse…

Ela, a própria. A Ponta do Leme. Sei que é hora é imprópria para a pele, sei que o sol é venenoso para a infecção que o antibiótico tenta debelar. Quer saber? Dane-se!

Se o mundo resolveu parar, fazer o que? Se é para contemplar a vida, que seja desse(s) ângulo(s) privilegiado(s) ao alcance dos meus olhos, sublinhados pelo som do mar e a ladainha dos ambulantes pós verão da praia aqui do meu Leme.  Nosso Leme.

Falar dele me alivia. Deixar minha vista vagar pelo horizonte desse mar de águas límpidas (oba!) decifrando embarcações e ilhas que quebram a linearidade do encontro do céu com o oceano.

Por mim, ficaria aqui pelo resto desse limbo indefinido. Mas não posso. Preciso voltar à realidade, ajudar o povo a empurrar o mundo e tentar faze-lo andar de novo, nem que seja mergulhando na literatura acadêmica.

Você não precisa ir comigo. Está convidado a ficar por aqui mais um pouco. Pelo tempo que quiser. Garanto que vai poder usufruir de prazeres de um lugar único.

Não sou eu que vou convencê-lo a ficar. Quem vai “cantar” você é a conversa do vento e o murmúrio do mar aqui da Ponta. Resista se for capaz…

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

 

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