Café com leite

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De Valéria del Cueto

março de 2007

“Olha, ele é café com leite”, diz o maior deles enquanto aponta para o caçula do grupo.

“Não tem nada disso não”, interrompe um dos jogadores que disputa no par ou ímpar a escalação dos times.

“Não vê que vai sobrar um?”, argumenta o mais velho empurrando o irmão menor. Ao seu lado o miudinho estufa o peito e faz cara de mau prejudicando o argumento e quase selando a sua sorte: ficar esquentando o “banco”.

A distância entre os cocos na areia da praia que delimita o gol é definida pelos passos do integrante de uma das equipes enquanto outro, do time oposto, fiscaliza a medição. Um, dois, três quatro…

Mais um garoto recolhe a pipa que dançava ao sabor do vento e de umas sacolejadas produzidas pelo movimento de seus braços no ar. Ele se aproxima após ser convocado para a partida. Foi um dos primeiros a ser escolhido, sinal que está entre os craques

do pedaço. O jogador mais velho do grupo deve ter uns 11 anos, o mais novo, o café com leite, uns cinco ou seis.

A partida começa e o jogo parece final de campeonato. O vocabulário utilizado reflete a seriedade da disputa:  “Passa a bola, porra!” Pede o mais bem colocado para o companheiro que vem desembestado em direção ao gol.“ Car… marca em cima, mané!”, grita o oponente alertando o zagueiro distraído. A pressão é grande e a correria também.

Opa! Uma contusão. Um dos moleques leva uma cabeçada. Ta lá um corpo estendido na areia. O jogo para. A partida é suspensa. Todo mundo cerca o contundido, verificando o tamanho do estrago, a extensão do dano…

O garoto pequenininho sai de campo, marchando. Seu irmão vai atrás e dá sua versão do episódio na barraca, onde os adultos querem saber as razões da interrupção da partida.

“O jogo estava “a vera” Dei uma cabeçada sem querer no moleque. Sabe como é, na moral não ia passar, né?” e completa: “ Eles não gostaram e me tiraram de campo”. A versão é confirmada pelo mais novo que sugere que partam para a briga.

Ideia imediatamente vetada pelos adultos.

O sol começa a cair e da partida restam apenas os quatro cocos que delimitavam os gols. Faltam jogadores para completar o plantel. Fim da festa…

A brincadeira agora é jogar frescobol. Só os dois. O grandão distrai seu pupilo, impedido de mostrar serviço entre as quatro linhas (?) do campo (?) .

O dono da bola de futebol (ele sempre existe e, normalmente, é o perna de pau do pedaço) agora cerca seu pai, que acaba de chegar na areia empurrando a  bicicleta. É a peça que faltava para completar o novo plantel.

Sentada na praia, na Ponta do Leme observo a cena e faço uma rápida análise das condições físicas do paizão requisitado. Ele porta uma barriga da-que-las. Nenhuma chance diante da energia acumulada da garotada. Ali não há pernas para manter a lenda de grande jogador contada e recontada para o rebento nem por míseros cinco minutos.

“Vai ter que ser café com leite na certa” vaticino, um pouco antes de escutar o diálogo do ex-craque com o filho:

“Fiz um monte de amigos” diz o garoto orgulhoso. O pai responde com conhecimento de causa trazido de antigas experiências no ramo: “Viu filho, como é bom ser o dono da bola?” e finaliza, fazendo um gol de placa para se livrar do inevitável vexame em campo: “Vamos deixar este jogo pra amanhã que já está tarde e mamãe está esperando”.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito

 

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