Cerol

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Texto e foto de Valeria del Cueto

fevereiro 2007

Estou precisando disso aqui. Sedenta de calor, do barulho do vento, do mar resmunguento depois do pico de uma ressaca.

Na minha frente a placa anuncia: PERIGO – CORRENTEZA, como se dissesse alguma novidade. Mais além está ele: revolto, nervoso e traiçoeiro. Se esborrachando contra a pedra do Leme, como se tivesse força para move-la. O mar encarpelado é um rebanho de carneirinhos.

É a boa e velha ressaca de carnaval que bate ponto pra dizer que ainda há regras, mesmo que tudo pareça exceção.
Na praia quase deserta um menino solta pipa. Sigo a linha, até encontra-la no céu.Deixo o balé me distrair. Me sinto a própria. Voando alto, solitária.

Nem tanto assim, descubro, ouvindo o diálogo que se desenrola acima do barulho das ondas: “Tá com cerol” Protesta o garoto em tom preocupado, pedindo sem esperança: “Deixa eu brincar…” O outro nem responde, parecendo o regente de uma orquestra, com seus gestos dramáticos, para aproximar a intrusa. Os golpes são certeiros, o ataque eminente. Não vai haver misericórdia como, acho, não há na vida.

A pipa guerreira está mais baixa, mas fácil de controlar. As linhas se cruzam, o maestro paralisa os braços, esperando que a sua alcance a posição ideal. Depois, é só um safanão certeiro. Os fios atritam, o cerol desliza, vira lâmina, arma branca. Lá no alto, a pipa se descontrola sem a tensão necessária e plana, perdida, sem direção. O garoto ao meu lado, derrotado conclui: “eu disse que tinha cerol”, olhando o brinquedo que se vai.

Pensando bem, volta e meia sou pipa. Gosto de voar, de sentir o vento. Mas, verdade seja dita, não tenho a menor chance de sobreviver no combate dos céus. Não passaram
cerol na minha linha.

Vôo, mas não sei me defender. Danço, mas não consigo cortar. Pena que na vida, outras pipas não saibam disso…

Volto ao chão, ao calor da minha praia. Nela, pelo menos, sei que não há tombo que possa me machucar de verdade. Aqui, sempre serei aconchegada pela Ponta, pela Pedra, pelo Leme e pelo mar que me consola. Ele explode, brada e companheiro, resmunga e se agita diante das ameaças passageiras que ousam perturbar minha a paz. Ela que sempre voltará a reinar, afinal, aqui é o meu lugar.

Valéria del Cueto e jornalista e cineasta

liberado para reprodução com o devido credito

esta crônica faz parte da série “Ponta do Leme”

 

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