Por falar nela, aí vem a Portela!

Portela 140303 076 Águia voa abre alas

Imagem de 2014, ilustrativa

 

POR FALAR NELA, AÍ VEM PORTELA

 

Texto e fotos (ainda não reveladas) de Valéria del Cueto
fevereiro 2007

Não há nada pior no mundo que a inércia. Detesto ser assim. O bom é quando este estado de paralisação passa e faz-se o movimento. Aí, só resta assumir o prejuízo e lamentar o tempo perdido. Fica mais fácil se não valorizarmos muito a perda e conseguirmos aproveitar o tempo que virá.

É com este espírito e disposta a seguir esta linha filosófica que me dirijo a você. Sou um exemplo clássico desta vertente. Sua última manifestação foi mais uma prova inconteste da força da lei da física.

Sábado, sete da noite, janeiro no Rio de Janeiro, pós praia. Final de semana que antecede um carnaval até certo ponto atípico já que, apesar de ser jornalista e estudante aplicada do curso de Gestão e Eventos de Festas Carnavalescas do Instituto do Carnaval, consegui a façanha de ter negado o pedido de credencial do jornal que me daria acesso ao desfile das escolas de samba na Marques de Sapucaí.

Fiquei tão chocada com o impedimento que resolvi “relevar” e não pensar em desfile este ano. Pra não chorar, comecei um exercício para encontrar outras formas de abordagem da festa, tentando dar uma de Poliana e fazer do limão uma limonada.

Tarefa difícil… Como tive de trancar a matrícula no segundo período do ano passado, já que estava numa missão cinematográfica em Brasília, também não estava em contato com meus ilustres colegas de turma. Todos envolvidos, de uma maneira ou de outra, com as escolas de samba.

“Deixa rolar”, pensava eu, enquanto olhava as chuvas torrenciais de janeiro, morrendo de preguiça e sem muita energia, encolhida no sofá da sala. “Las cosas pintan” citava o ditado de um guitarrista uruguaio, amigo de passagem pelo Brasil a caminho da Europa, nos meus tempos de Quatro Ilhas, Santa Catarina.

Claro que o tema “blocos do Leme” foi o que primeiro começou a ser cogitado. Facilzinho, tranqüilo e caseiro. Nenhum problema de segurança, o que permite o uso despreocupado do meu equipamento fotográfico.

O Sorri Pra Mim, bloco de Vila Isabel era uma opção natural e imediata, já que é organizado pelo Marçalzinho e homenageia seu pai, Mestre Marçal. Toda a família Marçal está na minha mira: este é o tema da minha monografia na faculdade.

Havia ainda uma possibilidade que eu deixava passar a cada final de semana, deste o início do ano: os ensaios técnicos da Sapucaí. Festona que levava milhares de pessoas ao Sambódromo a custo zero. Acho que não queria ir até lá para não sentir o gostinho do que não teria no carnaval: a avenida toda pra mim. Resisti enquanto pude. Me esforcei até o final. Mas, no sábado derradeiro os deuses decretaram que estava no meu destino estar na Sapucaí.

O que me levou foi a Portela. Igual ao rio do Paulinho da Viola. Tudo conspirou a favor. Um grande amigo estava na cidade. Entre solícita e curiosa, perguntei como quem não quer nada: “Você já assistiu a um desfile de escola de Samba?” “Não”, me respondeu ele interessado. “Já esteve no sambódromo?” Insinuei. Intrigado, afinal ainda não conhecia os ensaios técnicos, perguntou qual era a idéia. Aí joguei o laço: “Você gosta da Portela?” E me enforquei.

Compromisso assumido, rumamos para a Sapucaí depois do tempo necessário para que eu marcasse encontro com outros adeptos do programa e seus turistas a tiracolo. Desta vez os visitantes eram chilenos. Cito a procedência pra que vocês possam comprovar a variedade cultural envolvida.

A força final que me moveu em direção a passarela do samba foi a experiência que tive no último carnaval com a Portela e seu desfile, digamos, catastrófico para mim. Teria oportunidade de ver o trabalho de Nilo Sérgio, o mestre de bateria que é um dos meus ídolos desde então. Queria ver como viria a bateria que me encantou no ano anterior e da qual não guardei nenhum registro. Que frustração…

Outro motivo era ver o que o desempenho do samba deste ano, composto entre outros, por Diogo Nogueira, filho de João Nogueira. João, compositor de primeiríssima linha, jamais ganhou uma disputa de samba na Portela. Diogo, seu filho, o faria por ele. Desde que o samba foi escolhido que vinha sendo falado. Uns diziam que seu mérito era ser um samba com “andamento antigo”, outros que teria sido feito por Arlindo Cruz e “assinado” pelos meninos. Onde há polêmica há curiosidade.

E lá fui eu, rumo à Sapucaí. Escolhemos o setor 11, uma das arquibancadas mais vazias. Chegamos no meio do ensaio da Imperatriz. Só deu pra registrar a presença de um… bacalhau na avenida. Aproveitei para testar minha posição, bem em cima do recuo de bateria, decida incorporar um torcedor e suas possibilidades de registrar a festa. Me saí bem.

No intervalo me concentrei tanto no meu papel que consegui levar uma pancada no nariz de um ambulante que vendia cerveja. Ele disse que eu empurrei a caixa e reclamou do prejuízo que teria se a caixa tivesse caído. Eu retruquei que só sentia dor no nariz. Ele avisou que quebraria meu equipamento fotográfico se a caixa tivesse caído e se ele tivesse tido prejuízo. Tentei a paz sugerindo que ele não se zangasse e guardasse suas forças para algo mais consistente que seus “ses”.

Antes que o rapaz terminasse suas ameaças minha atenção foi atraída pela música que começava ao longe, de um único carro de som no início da avenida. Cortei o assunto: “Meu irmão, agora chega. Lá vem a Portela”.

Era ela, ao longe. Primeiro a comissão de frente olímpica, depois a águia prateada, símbolo da escola, com uma medalha de ouro no pescoço. As baianas de saias godês azul e branca, que se abriam a cada rodada, vinham na seqüência. As alas passavam e, na arquibancada, até quem não conhecia o samba inteiro começava a cantar. Sua melodia, assim como a águia, voava sobre a escola.

O som da bateria foi aumentando, Nilo Sérgio comandava a entrada no segundo recuo, a passagem dos instrumentos mais leves para a frente, pelo corredor do meio e a colocação correta dos componentes. O samba rolava solto, enquanto as alas da escola evoluíam.

Era o rio que, ali, sem fantasia, passava pela avenida. E mostrava anos de história e tradição que tenta se manter e sempre evoluir. Na baqueta de um novo mestre de bateria, com novos talentos do samba, permanece sua identidade. O Nilo Sérgio que mostrava personalidade e deixava sua marca pessoal no comando dos instrumentos, era o mesmo que entre eles, trazia para avenida um naipe de liras. Os jovens compositores beberam na fonte de antigos sambistas, voltando aos sambasmelódicos.

Em cima do carro de som, entre os puxadores, os meninos literalmente brincavam. Diogo Nogueira, animava os portelenses que evoluíam no asfalto. Lembrei de João Nogueira. Pensei no orgulho que qualquer um teria em ver seu filho ali. Multipliquei a emoção por ser ele um compositor. Elevei algumas potências por ser ele um portelense. Se o meu coração se deixou levar, imaginem o que está acontecendo no de João, esteja ele onde estiver…

Era apenas um ensaio técnico. Mas ali, para os que nunca viram e para aqueles que sempre hão de ver, estavam todos os símbolos da azul e branco de Osvaldo Cruz. A águia, a comunidade, a velha guarda, aquela bateria, um samba contagiante e mais um pedaço de história, das tantas já registradas, existentes sobre a Portela.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito

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