As sextas, de Valéria del Cueto

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Como é bom poder dizer, muito pausadamente, com todas as palavras, vírgulas e reticencias: “Hoje é sexta feira, são quatro horas de um dia clássico de verão e… estou na Ponta do Leme”.

Saindo de uma gripe, jogando pro alto os formulários do edital cultural da vez, deixando de lado as lides domésticas, colocando em hibernação o computador, chutando os problemas para escanteio, esquecendo o que esqueci de fazer, para apenas e – nada mais – me dedicar a um “dolce far niente” na praia.

Tenho mil justificativas para a escolha do dia e da hora. A mais contundente é considerar a tarde de sexta feira um período peculiar da semana. Todos trabalhamos. Mas existem pelo menos três vertentes de tarefas específicas para a ocasião.

A primeira engloba chamadas “ações de manutenção”, por assim dizer. É a melhor ocasião para fazer a social, manter contatos mais informais, tipo num almoço tardio na Majórica, tradicional churrascaria no Flamengo… Enfim, fechar a agenda dos últimos dias e abrir os “trabalhos” do final de semana.

A segunda vertente é mais estressante. Inclui os que estão no bonde andando, apertados por prazos e compromissos que quase certamente se estenderão sábado adentro, quiçá o final de semana inteiro… O melhor favor que os representantes do primeiro grupo podem fazer pelos do outro é ignorá-los.

Se a turma da social procura o pessoal que está ladeira abaixo numa frente de produção, produzirá uma pré-ofensa, já que estará atirando na cara do outro sua condição de livre, leve e solto.
Se for ao contrário e os muito ocupados entrarem em contato com alguém em atitude sociável, das duas uma: ou vai odiá-los pela convocação ou vai amá-los, por que sairá da inércia e ao aceitar um desafio qualquer. Contato que a missão possa ser desempenhada a partir da semana seguinte. Se o trabalho for pra já, o bicho pega. Afinal, o vivente já deve estar, no mínimo, na terceira caipirinha.

Foi este detalhe, a caipirinha, que me traz de volta ao mundo, a minha posição especial e privilegiada. Lembra do sol que brilhava no nosso dia clássico? Se fué. Névoas e nuvens botafoguenses (vieram dessa direção) encobrem seus raios e dão um alívio ao calorão típico desta atípico verão carioca.

Hora de levantar acampamento, acabar a conversa e partir para a próxima atração. No caso, o show do Júnior e do “Vulgue e Tostoi”, no Humaitá pra Peixe. Ô vida ruim…

Opa, faltou a terceira vertente, mas essa acho que não preciso dizer qual é. Você é capaz de adivinhar o que pode ser melhor do que bater o ponto na Majórica no almoço tardio de sexta feira?

Claro, caro leitor, que é estar na praia, no canto do Leme escrevendo mais uma crônica diretamente da Ponta. Pra você.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

liberado para reprodução com o devido crédito

Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

 

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