O ano que quase chegou

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O ANO QUE QUASE CHEGOU

Texto e foto de Valéria del Cueto
Janeiro, 2007

Enrolei o máximo que pude para inaugurar as crônicas de 2007. Nada me inspirava nos primeiros dias do ano. Chuva fina, umidade, sol nenhum, a sensação de que por mais que corresse ou me esquivasse chegaria ao meu destino do mesmo jeito: ensopada e com arrepios de frio. Destemperada.

Em casa, abrir as janelas traz o vento gelado. Ao fechá-las, encerro a maresia e a umidade reinante sobre os móveis, utensílio e a vida em geral.
Já disse: nada inspira. A vontade é espirrar o mundo. Como numa gripe, resfriado ou alergia que jogamos fora as mazelas, vírus e doenças que nos impedem a saúde. A minha, reconheço, é frágil e, por isso, susceptível às variações climáticas que nos acometem no momento. Tento reagir, consulto a meteorologia.  O que adianta? A mentirosa havia prometido tempo bom no reveillon. Já entra o ano moralmente em baixa…

Quando sai de casa às onze e meia do dia 31, já sabia que era mico. Por isso, fui para o Caminho dos Pescadores, na Pedra do Leme, de saia nova e capa de chuva. Precisava de um poste da mureta que contorna o caminho que funcionasse como tripé para  minha máquina fotográfica. Nunca tinha visto os fogos de Copacabana do ponto de vista que escolhi e sabia que sem o apoio para a câmera as fotos iam ficar uma porcaria.
Tá bom, não vou enrolar. Fiz as fotos ainda não sei o resultado. Uso filme, aquilo que existia antes do digital. Ele ainda tem que ser revelado.

Voltando ao Caminho e a noite da passagem de ano. Cheguei na hora certa por lá. Vaziinho.
O pilar da mureta foi protegido (estava todo encharcado, assim como fiquei depois de uns 15 minutos) por esta caderninho onde agora escrevo. Apoiada na capa plástica do meu MOB coloquei a máquina fotográfica.

Vendo meu esforço na montagem do set, um cara me ofereceu uma placa de madeira, para
apoiar o equipamento. “Grande demais”, expliquei agradecendo. Hugo – este era o seu nome – me contou, depois de se apresentar, que todos os anos passava a meia noite ali e predisse que eu veria um espetáculo diferente.
Enquanto a chuva caía, fina e persistente, meu novo amigo fazia sua declaração de amor ao bairro, aos 28 anos que pescava no pé da pedra do Leme e aos amigos que cultivava nas noites de bate papo, esperando os peixes morderem a isca. Falou muito, mas não me disse qual a diferença entre assistir a passagem de ano dali ou de qualquer outro ponto da praia de Copacabana. Só observou que a linha de luzes dos navios daquele ponto específico formava “a outra metade” do colar de luzes da praia famoso nos mais tradicionais cartões postais da cidade.

Perto da meia noite ele me desejou feliz ano novo e foi aguardar a contagem regressiva junto com os amigos, no final do Caminho dos Pescadores. Antes de sair, reclamou do vento “Agora ele está soprando mais forte, da terra para o mar. Lá vem mais chuva, vai apertar”. “Mais ainda?” pensei eu, que naquela altura dos acontecimentos, já estava usando parte da minha saia godê laranja como proteção por cima da câmera e temia, outra vez, me confrontar com a frustração de perder o meu trabalho por causa do aguaceiro como aconteceu no
desfile da Portela, no último carnaval, na Sapucaí. Para manter o meu abrigo era essencial que eu não me mexesse muito.

Aí, os fogos começaram. Nos primeiros minutos (foram mais de 20), como toda a multidão que ocupava a praia e o mar, prestei atenção a eles. Fogos, explosões e os navios acionando suas buzinas que soavam como lamentos sufocados.

O que me chamou a atenção foi outro foco de luzes que levei alguns segundos para identificar. Era disso que Hugo falava, deduzi imediatamente… Dali, da Pedra do Leme, os fogos tinham resposta e correspondência. Eram dobrados, multiplicavam-se como num espelho, refletidos nos vidros dos prédios da orla do Leme e Copacabana. Eles dialogavam com a noite e funcionavam como uma respiração, já que havia uma diferença de milésimos de segundos entre os fogos verdadeiros e a imagem impressa nas janelas, onde milhares de pessoas recebiam o ano novo.

Hugo tinha razão: era uma imagem diferente e, como vocês viram acima, difícil de explicar. Ele também estava certíssimo quanto ao tempo. Mais do que os meteorologistas de plantão.

Fiquei ali, fotografando, até que num movimento mais descuidado, senti que a pulseira
de lápis lazuli que usava para trazer boa sorte escorria pelo meu pulso. Abri a mão, para impedir que ela caísse pela mureta e fosse levada pelo mar. Tive sorte. Um pouco. Em vez da pulseira, acabei entregando para Iemanjá o anel que usava, uma jóia. Ele escorregou pelo meu dedo, fazendo um barulhinho ao ir batendo pela pedra abaixo. Como escutei o barulho no meio do tumulto? Não sei, mas que ouvi, isso ouvi…

Não tive tempo de pensar no que acontecia. Nesse momento, um homem desconhecido, sozinho como eu no meio da festa, todo vestido de branco, como a maioria que dos milhões de turistas que comemoravam o novo ano, me estendeu as mãos. Fiquei sem saber o que fazer: câmera, anel rolando, pulseira salva e o desconhecido ali sorrindo. Assim ficou ele, mãos estendidas à espera do meu cumprimento, aguardando que eu colocasse parte do meu equipamento na mochila, arrumasse a saia e me liberasse para receber sua benção. Que paciência. Não me desejou um feliz ano novo. Disse que ia ser um
ótimo ano e que eu conseguiria tudo o que almejava de verdade se fosse para o bem comum, por que este era o meu caminho…

Só hoje volto à vida, junto com o primeiro raio de sol que ilumina minha praia, depois de penar e purgar o preço da minha proeza. Foi tudo um quase. Certamente pior do que o todo em si.

Voltei pra casa naquela noite feliz, mas tão regelada que sucumbi a uma garrafa de vinho tinto e um banho bem quentinho, deixando na mão os amigos com quem combinei de festejar a passagem do ano, na Urca.

Foi uma quase gripe que me pegou nos primeiros dias de 2007. Incentivada pela quase chuva que me deixava meio molhada, cada vez que tentava sair de casa. Nada tinha muito gosto, nem me servia de consolo. Tentei a comida, a bebida, desisti da dieta que me prometera. Tudo por um afago de ano novo qualquer.

Até que descobri o cerne do problema: eu não era a única que precisava de um carinho. A chuva, a umidade, a quase tristeza reinante, eram formas de protesto de um 2007 que começava desolado. Cheio de expectativas e nenhuma certeza. Sei que é difícil acreditar, mas resolvi ser parte do desabrochar desta nova etapa. Com tempo ruim ou não…

Desafiei a nublação e me dirigi para a Ponta, onde, mais uma vez, procuro o que sempre acho por aqui. Quando cheguei, o dia estava horrível. Depois de um tempo o sol começou a tentar se projetar por uma brecha de nuvens mal humoradas, cinzentas e chorosas. Parecia apenas ter forças para iluminar de forma especial uma nuvenzinha mais fina. Ela era a única disposta a iniciar um diálogo amigável e disseminar o seu calor inseguro.

Depois, ele conseguiu um espaço maior e se projetou no mar. Mudou seu domicílio para a altura da Santa Clara, deu mole na Pedra do Leme. Cada vez que ele conquistava uma brecha, lá iam elas, acabar com a alegria, fechando a fenda que irradiava os raios solares. Mas ele, o sol, acabou se criando.

O vento, aquele de quem Hugo reclamou, resolveu atender aos pedidos do pescador (com um pequeno atraso, é verdade) e virou. Soprando, agora, do mar para a terra. As nuvens foram se espalhando. O por do sol, lá para os lados da Pedra da Gávea, prometeu e eu, como sempre, acredito e espero… Aqui, na Ponta, pelo novo ano e por outros tempos que construiremos juntos.

PS:
A meteorologia anuncia a chegada de mais uma frente fria. Mas, cá entre nós, que diferença isso faz, agora que o sol quase chegou a 2007?

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

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