LEME, OUTRA VEZ

Valéria del Cueto

Novembro, 2006

Voltei depois de um tempo que me pareceu longo demais. Estou aqui, cheguei a Ponta do Leme.

Hoje não é um dia clássico pra quem freqüenta o lugar. É uma quarta feira. Mormacenta e plúmbea. Isso mesmo. Profira a palavra. Assim está o tempo. Plúmbeo. Lá vou eu fugindo do tema. Mas ela está cinzenta mesmo.

No céu, vários tons de cinza tentam suprimir a luminosidade tímida, que não tem vez diante das nuvens pesadas a passearem lentamente pelo horizonte. As montanhas que recortam a paisagem perdem todas seus cumes avantajados. A Pedra da Gávea, o Pão de Açúcar, Cantagalo e Cabritos ganham um novo perfil, sufocadas pelas bruma pesada. Um desenho difertente da geografia carioca.

São eles, os mesmos tons que imperam também no mar, reflexos do mau humor celeste reinante. Na praia, só os “ninguéns” de sempre.

Os que vem em busca de calor, luz solar e energia não ousaram atravessar as obras intermináveis do rio orla que prometem novos e reluzentes quiosques para o verão. No momento, elas se limitam a dunas de areia e tratores mal disfarçados por tapumes repletos de propagandas da prefeitura.

Não há barraqueiros, vendedores de mate ou picolé. Temos pombos, atrás de migalhas inexistentes.

No mar, a prova cabal de que sempre haverá vida praiana, mesmo em dias de chumbo, como este. Pranchas de surf, bodyboarders, roupas de neoprene (a água está fria) Se há onda, há movimento. Espontâneo e provocado.

Se há ondas também existem pertences: mochilas, pés de pato, celulares, camisetas… E aí reside minha função atual. Primeiro foi um. Pediu para “dar uma olha nas coisas” e se foi em direção ao mar. Depois, apareceram mais dois. E por aí foi.

Do terceiro em diante, comecei a ficar preocupada. Tinha hora para ir embora e um monte de apetrechos sob minha guarda. Precisava avisá-los.

No horizonte, as nuvens se movimentavam. Mais negras em cima do mar. Foi aí que, entre idas e vindas, o sol conseguiu se esgueirar fazendo um desenho lindo no réu. Banhando um pedaço de areia, lá pelo posto quatro, com um raio que passeou por uma parte da praia de Copacabana, antes de ser novamente encoberto pelas nuvens, ciumentas.

Sinceramente, acredito em avisos e entendi a mensagem. Perdi a hora, esqueci o compromisso, desisti de devolver aos donos seus pertences e, enquanto observava o passeio das nuvens no céu, resolvi ser este o melhor momento para recomeçar minha atividade preferida: observar o entorno e relatar o que tenho o privilégio de presenciar.

Escrevo do Leme, da praia, na Ponta novamente…

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

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